Meu objetivo ao escrever o que segue, é sugerir que todos façamos uma reflexão sobre a situação em que o esporte se encontra no nosso estado. Na minha opinião - e provavelmente ao contrário do que a maioria pensa - o surf nunca esteve em situação mais preocupante por aqui.
Explico: a base de qualquer esporte, são as categorias de acesso. No caso do surfe, são os iniciantes, grommets, mirins e juniores. A partir de um trabalho bem feito com os atletas nesta fase, mais tarde aparecem os Pedras, Daisons e, por que não, Jeans da Silva - este último um bom exemplo, pois aproveitou nosso circuito amador por mais de uma temporada para preparar uma carreira que agora parece estar decolando, com patrocínios fortes e resultados ídem - em nível mundial. O Pedra é fruto do "periodo Bidart", época que foi - e ainda é - alvo de muitas críticas, mas que foi marcada por circuitos amadores anuais sempre com no mínimo 8 etapas.
É claro que não estou tentando defender a idéia de que "antes era melhor". Não se trata disso. O que estou tentando mostrar é que mesmo num período considerado por muitos como "negro" da FGS, tínhamos um circuito amador. E isto não acontece agora.
Cansei de ouvir nos últimos anos, mais de uma vez, a expressão "pela primeira vez na história do surfe gaúcho" ou então "o melhor" ou até "o maior...". Pois bem senhores, agora não paira nenhuma dúvida de que algo inédito aconteceu: "PELA PRIMEIRA VEZ NA HISTÓRIA DO SURFE GAÚCHO NÃO HAVERÁ NENHUMA ETAPA DO CIRCUITO GAÚCHO AMADOR NO VERÃO"!!! E isto não seria tão grave se houvesse a desculpa de que os patrocionadores sumiram ou algo parecido. Mas este não é o caso. Patrocinadores e eventos foi que não faltou neste verão. O que mais se viu foi campeonato "às brinca"...! Primeiro o Surf Boys Family, que ao invés de ser um evento com formato especial, podería contar pontos para um ranking - e circuito - mirim, a exemplo do que o Rip Curl Grom Search faz. Aliás, por que será que a Rip Curl tirou seu evento mirim do estado neste ano?
Depois aconteceu um tal campeonato só para surfistas "não federados" em Atlântida. Neste evento, apesar dos juízes fazerem parte da equipe da FGS, houve vários casos de xingamentos e confusões envolvendo os tais "não federados" que, justamente por não serem "federados", não estão sujeitos a nenhum tipo de sansão ou punição por parte da FGS.
Em seguida o WQS de que tanto tem se falado, em Torres. Tudo muito bacana. Surfistas do WQS nas nossas ondas. A oportunidade dos nossos atletas "brincarem" - já que não estão correndo o mundial. Mas a experiência é válida. A oportunidade de ver ao vivo alguns dos melhores atletas da atualidade, indescritível. Vários pontos para a FGS que conseguiu viabilizar o projeto junto com a sua parceira X3. Só espero que não se perca este evento para Santa Catarina no ano que vem, a exemplo do que aconteceu com o Super Surf este ano.
Depois do WQS mais nada. Acabou o verão e a única coisa que vai acontecer logo após o carnaval é outro evento para surfistas "não federados" outra vez! Aliás agora é um evento, segundo os organizadores, para homenagear os surfistas de uma época passada. Surfistas que competiram na década de 80. Infelizmente, apesar de eu ter vivido e competido intensamente esta época, cometi um pecado: me mantive competindo, o que faz de mim um surfista "federado" e, portanto, inapto para participar. Algo do tipo "tu não pode, o evento é para os meus amigos ganharem", entende?
Mas a maior e mais triste ironia disto tudo que está acontecendo é que todos os eventos citados acima foram sancionados e apoiados pela FGS! É incrível! Os surfistas gaúchos não tem campeonatos para treinar, mas a FGS está à plena! Sua equipe tem estado ocupada julgando e trabalhando em campeonatos cujos participantes não fazem parte do seu ranking! E todos estes eventos contaram com patrocínio, inclusive distribuindo farta premiação, com passagens internacionais, pranchas de surf, etc. Estou começando a ter a impressão que voltamos ao início da década de 80, quando tudo o que existia na cena competitiva do surf gaúcho era uma pequena "panela" em cada praia - e cada um por si.
Eu tento entender e não consigo. Da mesma maneira tento não me preocupar, dizendo pra mim mesmo que minha época já passou e que não tenho nada a ver com isso, mas não dá: preciso ao menos tentar. Preciso botar pra fora o que penso e ouvir o que a sociedade surfista gaúcha pensa sobre isto, pois não é possível que só eu esteja enxergando que o resultado desta falta de eventos para os nossos mirins é que em dois ou três anos não teremos mais nenhum surfista novo disputando final de brasileiro e muito menos um novo Pedra pra chuliarmos um ingresso no WCT.
E não venham me dizer que ninguém quer bancar eventos amadores, como já ouvi antes. Se não há patrocinadores para o nosso circuito AM, então cobrem uma taxa - a título de subsídio - de quem quer fazer eventos para "não federados". Assim ao menos quem faz a engrenagem funcionar - que são os surfistas amadores neste estado - receberão um pouco de benefício dos eventos que tem "portas fechadas" para eles. Esta taxa serviria para pagar o salário da equipe técnica e medalhas - que é tudo o que se precisa num evento AM (premiação é plus - amador precisa treinar). Ouvi várias vezes dizerem que o circuito catarinense AM "é uma favela". "Que não sei quem foi lá, ganhou e recebeu um troféu e uma camiseta de prêmio...". No entanto, neste mesmo final de semana do evento para os masters "não federados" em Atlântida, está acontecendo uma etapa do circuito catarinense de long em Imbituba e a segunda do AM no Santinho, em Floripa. Por que será que eles estão brigando pau-a-pau com SP e RJ no brasileiro AM?
Seguindo neste assunto, acabo de ler uma nota divulgando o evento deste final de semana em Atlântida, no Jornal Zero Hora. Também leio release, provavelmente redigido pelo patrocinador do evento (dada a babação), no Go Surf que cheio de orgulho informa que é um dos apoiadores do evento...o que está havendo? O evento que só permite a participação de uma panela é amplamente divulgado - e está lá escrito em todos os lugares: o evento tem o apoio da FGS! Isto não pode ser sério!
Entre outras coisas, penso que a FGS devería estabelecer critérios para manter a exclusividade, na organização de seus eventos, oferecida à X3. Na minha opinião, uma empresa para poder explorar com exclusividade o produto Surf Gaúcho, devería se comprometer em realizar eventos para todas as categorias - principalmente nos meses de maior concentração de surfistas na praia e, mais importante: nas praias com maior número de surfistas (Torres, Tramandaí, Atlântida, Capão, Cidreira, etc). É inacreditável que a base do nosso surf só vai ter o início do seu circuito em maio e na distante - e fria - São José do Norte! Quantos participantes vocês imaginam que estarão lá? Quantos novos valores estarão surgindo nesta primeira etapa?
Boas ondas.
quarta-feira, 4 de fevereiro de 2004
sábado, 4 de outubro de 2003
Surf seguro é praticado longe das redes
(e ao lado das plataformas)
Surfistas gaúchos vêm enfrentando o perigo de morrerem nas redes de pesca há vários anos sem que se encontre uma solução eficaz para o problema. Criaram-se leis determinando que as áreas para pesca e surf fossem demarcadas, mas a falta de fiscalização acabava comprometendo a idéia. Proibiu-se a pesca com redes nos meses da alta temporada, mas era justamente no inverno que as mortes aconteciam.
Finalmente, e infelizmente, apenas quando mais dois jovens morreram, em um mesmo final de semana, a comunidade do Surf resolveu dar um basta para este problema.
Um grupo de surfistas, entre eles dois advogados, um promotor, um ex-campeão de surf e um ex-dirigente, todos ainda praticantes do esporte, juntamente com a Federação Gaúcha de Surf , resolveu buscar uma alternativa para o que vinha sendo feito.
Após sucessivas reuniões onde foram analisadas todas as soluções possíveis, chegou-se a uma conclusão: os únicos lugares onde não há a possibilidade de existirem redes de pesca é nas praias rodeadas de morros, ao lado dos molhes e ao lado das plataformas de pesca.
As primeiras duas situações somente são encontradas em Torres e Cassino, lugares que oficialmente não apresentam nenhum registro de morte em redes de pesca. Na terceira situação, junto as plataformas de pesca, também não se tem notícia de morte em redes, mas existia um pequeno problema: leis municipais proibiam a prática do surf nestes locais.
Então a equipe jurídica da recém formada comissão começou a estudar uma maneira de mudar esta situação para que pudessemos buscar também estes “portos seguros” para a prática de nosso esporte. E encontrou-se uma saída: partindo do princípio de que jovens estavam sendo “empurrados em direção às redes de pesca” no momento em que não lhes era permitido ficarem próximos das plataformas, imaginamos que bastaría que se sugerísse um acordo para os presidentes dos clubes de pesca, que mantém estas plataformas, para tudo ficar resolvido.
Procuramos em primeiro lugar os responsáveis pela Plataforma de Atlântida, que imediatamente aceitaram o acordo, assinando-o no dia 19 de setembro passado.
Em breve, estaremos procurando os responsáveis pela Plataforma de Tramandaí e, logo depois, o pessoal de Cidreira. Como se trata de um acordo que procura dividir o espaço entre surfistas e pescadores e que, muito mais importante, busca preservar a vida de jovens, temos certeza que será muito bem recebido por ambos os clubes.
A solenidade do dia 13 de outubro marca o início desta nova fase na história das relações entre surfistas e pescadores. É um passo em direção a um mundo melhor, onde todos se respeitam e o principal: surfistas deixarão de morrer como peixes.
Veja abaixo como vai funcionar o sistema acordado com a Plataforma de Atlântida (é uma reprodução do texto que está na placa afixada na entrada da Plataforma de Atlântida):
AVISO
Todas as sextas, sábados e domingos, será afixada uma bandeira
em um dos lados da plataforma para sinalizar o lado liberado
exclusivamente para a prática do surf. O lado oposto fica reservado
para a pesca, não sendo permitida a prática do surf.
De acordo com Termo de Compromisso de Ajustamento de Conduta
celebrado em 19/9/2002 entre a Associação dos Usuários da Plataforma Marítima de Atlântida
e a Federação Gaúcha de Surf, com o auxilio do Ministério Público Estadual e da
Secretaria de Justiça e Segurança Pública.
O não cumprimento deste Compromisso importará no pagamento de multa de
01 salário mínimo por dia de descumprimento, sem prejuízo das demais medidas cabíveis.”
Surfistas gaúchos vêm enfrentando o perigo de morrerem nas redes de pesca há vários anos sem que se encontre uma solução eficaz para o problema. Criaram-se leis determinando que as áreas para pesca e surf fossem demarcadas, mas a falta de fiscalização acabava comprometendo a idéia. Proibiu-se a pesca com redes nos meses da alta temporada, mas era justamente no inverno que as mortes aconteciam.
Finalmente, e infelizmente, apenas quando mais dois jovens morreram, em um mesmo final de semana, a comunidade do Surf resolveu dar um basta para este problema.
Um grupo de surfistas, entre eles dois advogados, um promotor, um ex-campeão de surf e um ex-dirigente, todos ainda praticantes do esporte, juntamente com a Federação Gaúcha de Surf , resolveu buscar uma alternativa para o que vinha sendo feito.
Após sucessivas reuniões onde foram analisadas todas as soluções possíveis, chegou-se a uma conclusão: os únicos lugares onde não há a possibilidade de existirem redes de pesca é nas praias rodeadas de morros, ao lado dos molhes e ao lado das plataformas de pesca.
As primeiras duas situações somente são encontradas em Torres e Cassino, lugares que oficialmente não apresentam nenhum registro de morte em redes de pesca. Na terceira situação, junto as plataformas de pesca, também não se tem notícia de morte em redes, mas existia um pequeno problema: leis municipais proibiam a prática do surf nestes locais.
Então a equipe jurídica da recém formada comissão começou a estudar uma maneira de mudar esta situação para que pudessemos buscar também estes “portos seguros” para a prática de nosso esporte. E encontrou-se uma saída: partindo do princípio de que jovens estavam sendo “empurrados em direção às redes de pesca” no momento em que não lhes era permitido ficarem próximos das plataformas, imaginamos que bastaría que se sugerísse um acordo para os presidentes dos clubes de pesca, que mantém estas plataformas, para tudo ficar resolvido.
Procuramos em primeiro lugar os responsáveis pela Plataforma de Atlântida, que imediatamente aceitaram o acordo, assinando-o no dia 19 de setembro passado.
Em breve, estaremos procurando os responsáveis pela Plataforma de Tramandaí e, logo depois, o pessoal de Cidreira. Como se trata de um acordo que procura dividir o espaço entre surfistas e pescadores e que, muito mais importante, busca preservar a vida de jovens, temos certeza que será muito bem recebido por ambos os clubes.
A solenidade do dia 13 de outubro marca o início desta nova fase na história das relações entre surfistas e pescadores. É um passo em direção a um mundo melhor, onde todos se respeitam e o principal: surfistas deixarão de morrer como peixes.
Veja abaixo como vai funcionar o sistema acordado com a Plataforma de Atlântida (é uma reprodução do texto que está na placa afixada na entrada da Plataforma de Atlântida):
AVISO
Todas as sextas, sábados e domingos, será afixada uma bandeira
em um dos lados da plataforma para sinalizar o lado liberado
exclusivamente para a prática do surf. O lado oposto fica reservado
para a pesca, não sendo permitida a prática do surf.
De acordo com Termo de Compromisso de Ajustamento de Conduta
celebrado em 19/9/2002 entre a Associação dos Usuários da Plataforma Marítima de Atlântida
e a Federação Gaúcha de Surf, com o auxilio do Ministério Público Estadual e da
Secretaria de Justiça e Segurança Pública.
O não cumprimento deste Compromisso importará no pagamento de multa de
01 salário mínimo por dia de descumprimento, sem prejuízo das demais medidas cabíveis.”
terça-feira, 15 de abril de 2003
Voltei no tempo e fui até o fim do mundo
(ou como foram as coisas em São José do Norte, na terceira etapa do Circuito Gaúcho de Surf AM / 2003)
Quando fiquei sabendo que uma das oito etapas do Circuito Gaúcho Amador deste ano seria em São José do Norte, confesso que fiquei preocupado com o sucesso da empreitada. Mesmo sabendo que a cena surfística no extremo sul do estado está super forte e que no ano passado justamente esta foi uma das melhores etapas do Circuito, não pude deixar de lembrar que minha única experiência com o lugar não era das melhores.
Lembro vagamente a época: por volta de 1985 se não me engano. Inverno rigoroso. Acho que era julho e foi marcado um campeonato de surf no Cassino. Houve um deslocamento em massa para lá e tudo o que consigo me lembrar é que estava muito frio, o mar estava completamente flat e fomos recebidos como estrelas pela galera local. O patrocinador organizou festinhas, ofereceu a estadia e só. Competição que é bom, nada pois não haviam ondas!
A outra lembrança que tinha, era de um filme Super 8 feito pelo Bicudo e o George, surfistas das antigas de Imbé, que volta e meia buscavam alguns lugares "diferentes" para surfar. A onda que aparecia neste filme era uma direita longa, com meio metro mas perfeita, que passava pela câmera e seguia molhes abaixo. O lugar era São José do Norte e, segundo eles, tinha potencial, mas era de difícil acesso, completamente selvagem e muito frio, ou seja, roubada.
E foi com estas lembranças na cabeça que peguei a estrada em direção ao sul do estado. Também é preciso dizer que, além de todo o meu pessimismo ainda estava prevista a entrada de um swell monstro juntamente com uma frente fria daquelas! "Ai, ai, ai, é agora que vou me arrepender até o último fio de cabelo, pensei enquanto curtia a rápida mudança na paisagem, do amarelo queimado nas colinas que rodeiam Porto Alegre para o verde escuro das planícies mais ao sul do estado.
Apesar da distância, a viagem pareceu rápida e ao entardecer da sexta-feira, estavamos chegando em Rio Grande, onde fomos recebidos por André Carneiro, surfista local e um dos líderes da categoría Sênior do Circuito Gaúcho. Assim que chegamos André nos avisou que estava indo a um jantar "no leste", que é a maneira como os locais se referem a São José do Norte. Neste jantar, como viemos a saber mais tarde, foi assumido o compromisso por parte dos políticos locais de trazerem uma etapa do Circuito Brasileiro Supertrials ainda neste ano - provavelmente em outubro - para o Cassino.
Enquanto este jantar acontecia no leste, o irmão do "Broa", apelido de André Carneiro, nos levou para comer uma anchova, prato típico da tradicional "Festa do Mar", que estava acontecendo em Rio Grande.
Mais tarde, todos nos encontramos em casa. Junto com o Broa, chegou o "Boka", surfista e competidor das antigas de Rio Grande e que agora é vereador, já no seu segundo mandato - um dos mais votados na última eleição.
Sábado, primeiro dia de competição e o vento Minuano "a milhões". Frio glacial e muita espectativa no ar. Fui informado que o barquinho do "Seu Sadi", nos largaria perto da margem, mas ainda dentro dágua. Quase tive um filho. Lembrei a todos da minha idade e que já estava se instalando uma gripe neste velho Master. Apesar da gozação fui convincente na minha argumentação e fomos para o leste de balsa.
Ao chegar no pico, surpresa negativa: o palanque ainda estava sendo montado, o que me assustou, pois pelo horário, o evento já devería ter começado. Mas antes de investigar este tipo de assunto eu precisava ver o mar. Estava morrendo de curiosidade para ver como o tal swell monstro seria filtrado pelos molhes. E tive outra surpresa, desta vêz, agradável: encostado nas pedras dos molhes, protegidas do vento, corriam direitas perfeitas de um metro na série e o melhor: sem corrente. Provavelmente ali era o único lugar do estado com condições "civilizadas" de surf. "Ok, tem onda. Agora vamos ver o que está acontecendo que o palanque ainda está sendo montado", pensei. Que nada! Não tinha sido possível montar o segundo andar da estrutura devido aos fortes ventos. E a primeira bateria estava entrando nágua. O show estava começando.
No domingo o mar baixou um pouco (lá fora) e as ondas ficarm muito mais perfeitas nas pedras. Com o vento quase parado haviam momentos em que a comparação com a onda da Silveira era inevitável. O palanque agora estava montado com seus dois andares e o show de surf dentro dágua já havia recomeçado. Quem esteve lá não esquece a onda nota dez que o Márcio Ramos, campeão da Sênior, tirou na bateria final. Ele veio do outside até a beira, dando uma batida atrás da outra, emendando todas as manobras sem dar uma única acelerada ou picada com sua prancha. Perfeito. Nota dez!
Também não posso deixar de comentar o prazer de estar do outro lado, isto é, do lado de dentro. Na final da Master pude aproveitar a perfeição daquelas direitas. Me senti tão bem lá dentro que por alguns instantes esqueci que estava competindo. Pude enterrar de vêz a má impressão que tinha do lugar.
O que se viu nos dois dias de campeonato em São José do Norte foi um clima muito surf. A galera local está fissurada pelo esporte - tanto os surfistas quanto os simpatizantes. A cena local está muito desenvolvida. Patrocinadores, torcida, atletas, enfim, a área de Rio Grande já pode ser considerada um pólo de surf no estado. Da minha parte, posso dizer que voltarei para lá sempre que tiver oportunidade, pois o lugar é fantástico. Aliás, vale lembrar que a distância para se chegar ao molhe leste, partindo de Porto Alegre, é bem menor do que até a Silveira e a temporada de frentes de sul está chegando...
Um abraço
Quando fiquei sabendo que uma das oito etapas do Circuito Gaúcho Amador deste ano seria em São José do Norte, confesso que fiquei preocupado com o sucesso da empreitada. Mesmo sabendo que a cena surfística no extremo sul do estado está super forte e que no ano passado justamente esta foi uma das melhores etapas do Circuito, não pude deixar de lembrar que minha única experiência com o lugar não era das melhores.
Lembro vagamente a época: por volta de 1985 se não me engano. Inverno rigoroso. Acho que era julho e foi marcado um campeonato de surf no Cassino. Houve um deslocamento em massa para lá e tudo o que consigo me lembrar é que estava muito frio, o mar estava completamente flat e fomos recebidos como estrelas pela galera local. O patrocinador organizou festinhas, ofereceu a estadia e só. Competição que é bom, nada pois não haviam ondas!
A outra lembrança que tinha, era de um filme Super 8 feito pelo Bicudo e o George, surfistas das antigas de Imbé, que volta e meia buscavam alguns lugares "diferentes" para surfar. A onda que aparecia neste filme era uma direita longa, com meio metro mas perfeita, que passava pela câmera e seguia molhes abaixo. O lugar era São José do Norte e, segundo eles, tinha potencial, mas era de difícil acesso, completamente selvagem e muito frio, ou seja, roubada.
E foi com estas lembranças na cabeça que peguei a estrada em direção ao sul do estado. Também é preciso dizer que, além de todo o meu pessimismo ainda estava prevista a entrada de um swell monstro juntamente com uma frente fria daquelas! "Ai, ai, ai, é agora que vou me arrepender até o último fio de cabelo, pensei enquanto curtia a rápida mudança na paisagem, do amarelo queimado nas colinas que rodeiam Porto Alegre para o verde escuro das planícies mais ao sul do estado.
Apesar da distância, a viagem pareceu rápida e ao entardecer da sexta-feira, estavamos chegando em Rio Grande, onde fomos recebidos por André Carneiro, surfista local e um dos líderes da categoría Sênior do Circuito Gaúcho. Assim que chegamos André nos avisou que estava indo a um jantar "no leste", que é a maneira como os locais se referem a São José do Norte. Neste jantar, como viemos a saber mais tarde, foi assumido o compromisso por parte dos políticos locais de trazerem uma etapa do Circuito Brasileiro Supertrials ainda neste ano - provavelmente em outubro - para o Cassino.
Enquanto este jantar acontecia no leste, o irmão do "Broa", apelido de André Carneiro, nos levou para comer uma anchova, prato típico da tradicional "Festa do Mar", que estava acontecendo em Rio Grande.
Mais tarde, todos nos encontramos em casa. Junto com o Broa, chegou o "Boka", surfista e competidor das antigas de Rio Grande e que agora é vereador, já no seu segundo mandato - um dos mais votados na última eleição.
Sábado, primeiro dia de competição e o vento Minuano "a milhões". Frio glacial e muita espectativa no ar. Fui informado que o barquinho do "Seu Sadi", nos largaria perto da margem, mas ainda dentro dágua. Quase tive um filho. Lembrei a todos da minha idade e que já estava se instalando uma gripe neste velho Master. Apesar da gozação fui convincente na minha argumentação e fomos para o leste de balsa.
Ao chegar no pico, surpresa negativa: o palanque ainda estava sendo montado, o que me assustou, pois pelo horário, o evento já devería ter começado. Mas antes de investigar este tipo de assunto eu precisava ver o mar. Estava morrendo de curiosidade para ver como o tal swell monstro seria filtrado pelos molhes. E tive outra surpresa, desta vêz, agradável: encostado nas pedras dos molhes, protegidas do vento, corriam direitas perfeitas de um metro na série e o melhor: sem corrente. Provavelmente ali era o único lugar do estado com condições "civilizadas" de surf. "Ok, tem onda. Agora vamos ver o que está acontecendo que o palanque ainda está sendo montado", pensei. Que nada! Não tinha sido possível montar o segundo andar da estrutura devido aos fortes ventos. E a primeira bateria estava entrando nágua. O show estava começando.
No domingo o mar baixou um pouco (lá fora) e as ondas ficarm muito mais perfeitas nas pedras. Com o vento quase parado haviam momentos em que a comparação com a onda da Silveira era inevitável. O palanque agora estava montado com seus dois andares e o show de surf dentro dágua já havia recomeçado. Quem esteve lá não esquece a onda nota dez que o Márcio Ramos, campeão da Sênior, tirou na bateria final. Ele veio do outside até a beira, dando uma batida atrás da outra, emendando todas as manobras sem dar uma única acelerada ou picada com sua prancha. Perfeito. Nota dez!
Também não posso deixar de comentar o prazer de estar do outro lado, isto é, do lado de dentro. Na final da Master pude aproveitar a perfeição daquelas direitas. Me senti tão bem lá dentro que por alguns instantes esqueci que estava competindo. Pude enterrar de vêz a má impressão que tinha do lugar.
O que se viu nos dois dias de campeonato em São José do Norte foi um clima muito surf. A galera local está fissurada pelo esporte - tanto os surfistas quanto os simpatizantes. A cena local está muito desenvolvida. Patrocinadores, torcida, atletas, enfim, a área de Rio Grande já pode ser considerada um pólo de surf no estado. Da minha parte, posso dizer que voltarei para lá sempre que tiver oportunidade, pois o lugar é fantástico. Aliás, vale lembrar que a distância para se chegar ao molhe leste, partindo de Porto Alegre, é bem menor do que até a Silveira e a temporada de frentes de sul está chegando...
Um abraço
segunda-feira, 14 de abril de 2003
A desistência de Neco Padaratz
Muito tem se falado e analizado o que aconteceu recentemente com Neco Padaratz. Ele desistiu de competir na etapa do mundial WCT em Teahoopo, no Tahiti, por não ter conseguido superar o trauma que tem com o local desde que quase morreu afogado lá. O interessante do fato é que a notícia não foi dada através de um furo jornalístico. A notícia chegou à imprensa através de uma carta redigida pelo próprio Neco, prestando conta com todas as pessoas que torcem pelo surf brasileiro - e a própria imprensa.
Confesso que ao ler a carta me senti meio dividido. Em parte entendo o Neco.. Pensando como um sujeito de 39 anos de idade, com mulher e filha e que não tem mais compromisso nem com patrocinadores nem com ninguém a não ser consigo, entendo perfeitamente que o cara não queira - neste momento - arriscar a vida em um lugar onde já viveu um filme de terror.
Por outro lado, concordo que como brasileiro e torcedor do Neco, sinto-me frustrado. Penso que dos que estão correndo o WCT, o Neco é um dos poucos, senão o único brasileiro com capacidade real de tornar-se campeão mundial de surf. Não tanto pela qualidade do seu surf, mas muito mais porque neste jogo político em que o surf mundial também se transformou, ele é uma unanimidade entre os gringos. Ele é - ou era - respeitado há muito tempo tanto pela imprensa internacional quanto pelo corpo de juízes da ASP.
Acho natural que todos sintamos uma certa vergonha por termos que admitir que foi um dos nossos que puxou o bico, mas cansei de ler aqui e ali sobre gringos que se apavoraram na hora de enfrentar Waimea e outros picos de ondas grandes e também acabaram puxando o bico.
O problema é que o fato envolvendo o Neco toma proporcões maiores por ele ser brasileiro e porque ele teve a coragem - e respeito - de admitir publicamente, em carta destinada não só à imprensa mas também a todos nós, o seu problema.
É preciso que respeitemos o homem Charles por sua coragem de enfrentar o problema assim, com respeito pelos que torcem por ele. Se quisermos neste momento desistirmos do ídolo Neco, tudo bem, é justo. Ídolo é aquele sujeito que nos serve como espelho. Mas para mim, surfista de alma, do fundo do coração, passei a admira-lo mais ainda, pois em nenhum momento ele assinou contrato comigo ou com você, para estar dando satisfação desta maneira.
Tentem imaginar Andy Irons, Kelly Slater ou mesmo o malucão Tom Curren, ídolos de muitos, dando satisfação do que fazem ou deixam de fazer.
Respeito o Neco e o principal: continuo apostando minhas fichas nele.
Confesso que ao ler a carta me senti meio dividido. Em parte entendo o Neco.. Pensando como um sujeito de 39 anos de idade, com mulher e filha e que não tem mais compromisso nem com patrocinadores nem com ninguém a não ser consigo, entendo perfeitamente que o cara não queira - neste momento - arriscar a vida em um lugar onde já viveu um filme de terror.
Por outro lado, concordo que como brasileiro e torcedor do Neco, sinto-me frustrado. Penso que dos que estão correndo o WCT, o Neco é um dos poucos, senão o único brasileiro com capacidade real de tornar-se campeão mundial de surf. Não tanto pela qualidade do seu surf, mas muito mais porque neste jogo político em que o surf mundial também se transformou, ele é uma unanimidade entre os gringos. Ele é - ou era - respeitado há muito tempo tanto pela imprensa internacional quanto pelo corpo de juízes da ASP.
Acho natural que todos sintamos uma certa vergonha por termos que admitir que foi um dos nossos que puxou o bico, mas cansei de ler aqui e ali sobre gringos que se apavoraram na hora de enfrentar Waimea e outros picos de ondas grandes e também acabaram puxando o bico.
O problema é que o fato envolvendo o Neco toma proporcões maiores por ele ser brasileiro e porque ele teve a coragem - e respeito - de admitir publicamente, em carta destinada não só à imprensa mas também a todos nós, o seu problema.
É preciso que respeitemos o homem Charles por sua coragem de enfrentar o problema assim, com respeito pelos que torcem por ele. Se quisermos neste momento desistirmos do ídolo Neco, tudo bem, é justo. Ídolo é aquele sujeito que nos serve como espelho. Mas para mim, surfista de alma, do fundo do coração, passei a admira-lo mais ainda, pois em nenhum momento ele assinou contrato comigo ou com você, para estar dando satisfação desta maneira.
Tentem imaginar Andy Irons, Kelly Slater ou mesmo o malucão Tom Curren, ídolos de muitos, dando satisfação do que fazem ou deixam de fazer.
Respeito o Neco e o principal: continuo apostando minhas fichas nele.
sábado, 29 de março de 2003
Puerto Escondido
Puerto Escondido, localizada no litoral oeste do México, no Estado de Oaxaca, tem pouco mais do que 45 mil habitantes. Destes, uma boa parte são estrangeiros que se estabeleceram e montaram seus negócios em Puerto. A maioria dos bares, restaurantes e hotéis à beira-mar são deles e, quando se caminha na ruazinha em frente ao pico (onde se passa 99% do tempo que não se está dentro d'água), a impressão é de estar numa espécie de "Babilônia" moderna, tamanha a diversidade de línguas que se ouve, razão pela qual os locais se vêem obrigados a saberem se comunicar através do inglês, que, às vêzes, chega a parecer a língua oficial do lugar. A subsistência da cidade vem basicamente do turismo e da pesca, mas devido ao seu rápido crescimento e localização estratégica, tem atraído algumas fábricas importantes – a Pepsi Cola acaba de se instalar lá. Puerto está localizada uns 500km ao sul de Acapulco e 100km ao norte de Huatulco, dois grandes pólos turísticos do país. Só há um vôo diário para lá, feito pela Mexicana/Aerocaribe, partindo da Cidade do México e com duração de uma hora.
A aparência da cidade lembra muito aquilo que se vê nos filmes de TV sobre o México. A arquitetura é típica e, as construções mais modernas, não fogem muito do estilo clássico. A zona freqüentada pelos turistas resume-se a um pequeno "centrinho", com uma rua lotada de restaurantes e pequenas lojas vendendo desde produtos do artesanato local até surfshops cheias de importados. Também há a rua à beira-mar, na praia de Zicatela, onde está situado o famoso "Beachbreak" – paraíso dos surfistas. Nesta rua, pode-se encontrar hotéis e restaurantes para todos os gostos e bolsos, além de vários cyber-cafés, casa de câmbio, lojinhas de moda-praia e surfshops. Bem no início da rua, convenientemente chamada "Calle del Morro" (Rua do Morro), está o Hotel Santa Fé, salgado para o bolso mas perfeito para os que não abrem mão de conforto. Seguindo em direção ao meio da praia, estão os outros hotéis (Arco-íris, Acuario e Ines) mais freqüentados pela galera, devido não só ao preço mais em conta, mas também porque estão localizados em frente ao pico. Além disso, todos eles têm piscina e alguns, como o Aquario, também oferecem o serviço de massagem que, dependendo de sua forma física, vai ser indispensável depois de alguns caldos bem fortes. E é exatamente ali que estão os points de encontro da galera: El Cafezito e El Viadero – dois restaurantes que, além de servirem ótimos "desayunos" (café da manhã), também oferecem um cardápio bem variado. Também é ali que à tardinha, por volta das 17h, aparecem os fotógrafos com o registro feito por eles do surf matinal. Atualmente existem três: Ruben Piña, Mike Levy e Miguel. Com estas três feras das lentes todas as manhãs a postos, é garantido que a sua melhor onda sempre será fotografada. E se realmente for uma boa onda, provavelmente será registrada pelos três com direito a fotos seqüenciais, pois todos usam motordrive em suas câmeras. Isto nem sempre é vantajoso, pois para garantir que no dia seguinte sua melhor onda não seja boicotada por nenhum deles, você se vê obrigado a comprar todas as fotos, o que pode significar um bom desfalque ao seu bolso. O valor médio de cada foto é US$ 2,5. Agora faça o cálculo, mas lembre-se de multiplicar por três fotógrafos: um bom tubo pode gerar umas 12 fotos. E não se esqueça de levar em consideração que a possibilidade de você pegar vários tubos bons numa mesma manhã é muito grande, ou seja, leve uma grana extra só para comprar fotos. E só para vocês terem idéia, eu comprei 45 fotos!
O clima em Puerto é tropical, ou seja, calor o ano inteiro. No inverno, de outubro à abril, a temperatura é agradável à noite, por volta de uns 20 a 22 graus, e durante o dia pode chegar aos 30. O engraçado é que a época das ondas em Puerto não é no inverno e sim no verão, que vai de maio à setembro. Nesta época, além de ondas que podem chegar fácil aos 18 pés, a temperatura não baixa de 30 graus nem à noite. E durante o dia, chega aos 40! Também é neste período que chove por lá, normalmente no final da tarde. O vento é um caso à parte. Todos os dias acontece exatamente a mesma coisa: amanhece terral e lá pelas 11h da manhã vira para maral. Dependendo da época do ano, à tardinha, o vento pode parar, proporcionando um final de tarde de boas ondas no Beachbreak.
Mas o surf em Puerto não se restringe ao Beachbreak. A distância de uma caminhada (ou US$ 2 de táxi) está um dos melhores point breaks do mundo: La Punta. Localizada no canto sul da praia de Zicatela, La Punta é uma esquerda longa e forte com diversas seções manobráveis. É a pedida certa para relaxar depois da adrenalina do Beachbreak na manhã. Mas também existem outras opções longe de Playa Zicatela. Ao norte, ainda em Puerto Escondido, há um pico chamado Carrizarillo, que é o paraíso das merrecas. Quando o mar está grande, nesta pequena baía quebram ótimas marolas de até um metro. Seguindo em direção ao norte, mais uns 50km, está Roca Blanca, um point break de direitas que, além de oferecer ótimas ondas, tem um visual deslumbrante. Só há um problema: é preciso um bom swell para Roca Blanca funcionar.
Em direção ao sul, há uma infinidade de beachbreaks até se chegar a Huatulco, uma espécie de "Acapulco miniatura" devido aos vários resorts e campos de golfe. É uma cidade linda, cheia de lugares pitorescos e praias maravilhosas, mas sem ondas. Na verdade, é alguns quilômetros ao sul de Huatulco que são encontradas as melhores ondas da região depois de Puerto Escondido: Barra de La Cruz. Point break de direitas longas e perfeitas que quebram quando há um swell de pelo menos 6 pés em Puerto. Voltada para o sudoeste, nesta baía o sol nasce no mar e se põe na terra. E isto é muito engraçado, considerando-se que no Pacífico o pôr-do-sol é no mar. Além deste pico, nesta região existem vários secrets escondidos entre as formações rochosas, caracteríticas da paisagem local.
DINHEIRO
No período em que estivemos em Puerto, a cotação do dólar em relação ao peso mexicano era de 10 para um, o que tornava fácil calcular o valor das coisas. Uma refeição custa em torno de US$ 6. Uma cerveja long neck ou um refrigerante, US$ 2, e uma diária num hotel, em torno de US$ 15 por pessoa (sem café da manhã). O transporte, quando necessário, é feito de táxi, que não possui taxímetro. Uma corrida do aeroporto até a beira da praia (onde estão os hotéis) custa US$ 3,5. Até o centro ou à Punta, US$ 2, e isto é tudo porque não há outros lugares para se ir em Puerto, a não ser que você queira visitar as zonas residenciais e afastadas do mar. Também há a possibilidade de você contratar um táxi para ir a Huatulco por US$ 30.
Equipamentos de surf são muito caros em Puerto. Aliás, isto merece um comentário. Você vende suas pranchas facilmente lá. E isto pode ser um ótimo negócio, uma vez que as pranchas levadas para Puerto dificilmente funcionariam aqui. Uma prancha usada, em bom estado, pode ser vendida em Puerto facilmente por US$ 160, exatamente o valor de uma prancha nova aqui. Além disso, suas bermudas, camisetas, bonés e até chinelos Havaianas são desejados pelos locais. Dá pra fazer a mala. Também é preciso comentar que a Mexicana/Aerocaribe, única empresa que voa para lá, cobra US$ 55 pelo pacote de pranchas. Isto significa que, caso você não venda todas suas pranchas, pagará um total de US$ 110 só para o transporte das mesmas.
Mas se você é daqueles que gostam de fazer "rancho" em freeshop, aproveite o tempo de espera pelo vôo para o Brasil, quando estiver no aeroporto da Cidade do México. Depois da reforma realizada em 99/2000, foi acrescentada uma nova ala internacional que deve ter um quilômetro só com freeshops. É uma ao lado da outra e me chamou a atenção que muitas delas são do tipo "qualquer coisa por US$ 10". É possível fazer boas barganhas. Mas não se engane: coisas típicas do México, como uma garrafa de Tequila por exemplo, são muito mais caras no freeshop.
Uma dica legal: quando estiver voltando, ao chegar no aeroporto da Cidade do México, não troque seus pesos por dólar. Vão lhe pagar muito pouco e nos freeshops da ala internacional é possível pagar suas compras com pesos, utilizando uma cotação mais interessante.
EQUIPAMENTO
Pranchas para surfar em Puerto Escondido são fáceis de fazer: tem que ter remada e, como o objetivo é o tubo, tem de ser grande e esticada. A fórmula é básica. Quanto antes você conseguir entrar na onda, mais controle e condições de colocar a prancha no trilho. O problema é quando o mar começa a baixar, ou quando você vai surfar em outros points. Minha sugestão é que você leve duas pranchas grandes para o Beachbreak – uma para surfar ondas de 8 pés plus e outra para surfar de 4 a 6 pés – e duas pranchas para surfar os outros picos – sua prancha do dia-a-dia e mais uma para quando o mar dá uma crescida. Para o meu uso, este quiver seria o seguinte: 6'0", 6'4", 7'0" e 7'6".
Uma bermuda e uma lycra dão conta do recado o ano inteiro – a não ser que você dê o azar que dei desta vez e encontre uma situação totalmente atípica: água e vento frios! Mas um short cavado teria resolvido o problema. Além disso, muito protetor solar. Cordinhas estão em baixa por lá. Além do pico ser muito próximo à praia, a cordinha pode ser a responsável por segurar sua prancha no local exato da guilhotina, numa vaca. Vi muitas pranchas quebrarem ao meio porque a cordinha as manteve na zona de impacto logo após um tubo sem sucesso. Eu usei direto, mas dei sorte. Não quebrei nenhuma.
A VIAGEM
A idéia de viajar para Puerto Escondido pela terceira vez surgiu para mim tão rápido como os tubos do Beachbreak. Meu amigo Toshio ligou dando a idéia na quarta-feira, e na quinta-feira seguinte estávamos embarcando. Mal tive tempo de providenciar as pranchas, arrumar as malas e despedir-me dos familiares. Quando vi, já era véspera da partida. No vôo de ida (11 horas somando-se o fuso de menos três), um filme foi passando na minha cabeça. Lembrei-me das outras vezes em que havia feito o mesmo caminho. Fiquei tentando imaginar o que me aguardava, pois eu tinha conhecido dois Puerto totalmente diferentes. Na primeira vez que fui, em 1987, era época de ondas: agosto. Fiquei lá 40 dias e peguei as maiores e melhores ondas da minha vida. La Punta quebrou todos os dias e, no melhor deles, com 10 pés. Tenho fotos minhas surfando no Beachbreak, ondas que parecem gigantescas se comparadas às da minha segunda viagem para Puerto, quando fui para passar o reveillon. Não era o período das ondas. Ao contrário da primeira ida, Puerto estava lotada de gente. O turismo havia invadido a cidade e, conseguir um quarto de hotel, havia se transformado numa tarefa de gincana. Dentro d'água não era diferente. Crowds intensas disputando ondas de, no máximo, 4 a 5 pés. Foi uma semana de merrecas, mas a minha maior decepção foi La Punta: totalmente adormecida.
Minha ansiedade crescia a cada hora naquele vôo. Mal podia esperar para chegar novamente em Puerto Escondido. O pior é que chegaríamos no México depois do vôo diário para lá, ou seja, teríamos que passar uma noite na Cidade do México antes de embarcarmos para o destino final.
PUERTO
A sensação de se chegar a Puerto Escondido é sempre igual: gruda-se os olhos na janela do avião e vai-se acompanhando o desenho do litoral mexicano todo recortado, tentando adivinhar se aquelas marcas de espuma são ondas de verdade ou só marolas quebrando. Depois, ao sair do avião, o choque térmico: calor e vento morno. No caminho para o hotel, avista-se o Beachbreak a distância, e o coração pula, porque sempre, por menor que esteja o mar, tem-se a impressão de que está enorme.
A partir daí, começava a rotina de Puerto que é sempre a mesma: dormir e acordar cedo. Normalmente, o surf durava do amanhecer até por volta das 11h, e aí íamos fazer o "desayuno". Após o café, que consistia em panquecas, ovos mexidos, frutas e suco de laranja, ou íamos checar a Internet ou ficávamos vagabundeando por ali, com os locais, pois outra vez La Punta estava adormecida.
Os locais merecem um comentário. Pela primeira vez, me entrosei com eles. Aliás, precisa ser dito que a quantidade, principalmente de bodyboarders, cresceu assustadoramente. E os caras estão arrebentando. Desde o veterano Roberto Salinas (que apesar de ser o único que não se mistura, é digno de crédito por arrepiar numa 5'9" com 30 anos de idade), até as jovens promessas como Oscar Moncada, com uma colocação para os tubos impressionante. Além destes, há o embaixador de Puerto, Carlos "Coco" Nogales. Coco, embora seja um surfista profissional totalmente bancado pela Hurley, é muito humilde. O cara é gente finíssima. Fazia questão de nos procurar, nos chamava para fazer as refeições com ele, nos deu presentes (entre eles, a revista Surfer cujo entrevistado do mês é ele), enfim, um amigaço. Mas não se engane. Ele também sabe ser agressivo com quem não lhe respeita. Apareceram alguns havaianos por lá, e ele tratou de mostrar suas garras. Tudo começou quando teve um problema com os irmãos Irons durante a passagem do Circuito Mundial pela Europa. Depois disso, Coco foi apedrejado pelos locais na saída de sua bateria no trials do Pipe Masters. A partir daí, os surfistas mexicanos, liderados por Coco, abriram guerra contra os havaianos.
Além destes, é preciso mencionar ainda Roger, um goofy footer que lembra o estilo de Gery Lopez ao surfar. Calmo, fala mansa, chega à beira da praia tranquilamente com sua esposa portuguesa e seu filhinho recém-nascido e monta seu guarda-sol. Quando entra n'água, domina o pico! Tem também o Chico. Brasileiro, mora há doze anos entre Puerto Escondido e Santa Cruz, na Califórnia. Também tem o Raul, primeiro mexicano a vencer uma etapa do WQS, na Venezuela. Este arrebenta. Quando você pensa que ele vai colocar para um tubo, ele dá na cara. Quando você pensa que a onda vai fechar, ele passa por dentro.
Também tivemos a companhia de outros brasileiros: o carioca Alexandre Acioly, local da Barra, e o paulista Rodrigo Moratelli, acompanhado de sua esposa, Milena, que estava grávida de cinco meses. Rodrigo foi o responsável pelo melhor e mais profundo tubo entre a galera brasileira. Os fotógrafos locais, que ganham a vida vendendo as fotos aos surfistas estrangeiros, fizeram a mala com o Rodrigo. Cada um deles (e são três) fez umas 12 fotos em seqüência deste tubo. Mas é uma lembrança que o Rodrigo certamente vai se orgulhar de mostrar para o filho que está chegando, quando ele estiver grandinho.
AS ONDAS
No dia em que chegamos, fomos avisados: o mar estava subindo e fazia dois meses que não entrava um swell decente. Ao acordar no dia seguinte, já dava pra ouvir, do quarto do hotel, o barulho das ondas quebrando no pico em frente. Ainda deitado na cama, a adrenalina começou a correr. Ao chegar à beira da praia, uma cena impressionante: uma série com 8 pés sólidos quebrando perfeita, abrindo para os dois lados. Já dentro d'água, ao remar para a primeira onda, surpresa: além de um backwash que eu nunca tinha visto em Puerto, havia uma corrente contra muito forte, e o resultado é que para entrar na onda era necessário uma remada muito mais forte do que o normal.
Mas o pior não era isso: a água, para surpresa de todos, inclusive dos mexicanos, estava gelada. Um short manga curta estava valendo ouro! Não estávamos acreditando no que acontecia, pois, além de estarmos passando frio, simplesmente nossas pranchas pareciam pequenas para as condições. Eu estava com uma 7 pés que parecia uma 6'4" no drop, e isto tornou muito difícil nossa adaptação às condições. Mas tudo bem, após muitos caldos, finalmente começaram a sair os "canudos" que tinhamos vindo buscar. Depois dos três dias grandes, a ondulação de norte começou a enfraquecer, e uma nova de sul, com água mais quente, começou a entrar.
Puerto começava a ficar do jeito que eu conhecia, com água morna e as ondas fechando um pouco mais, porém, pequenas. A vantagem desta frente de sul que entrou, além da água morna, é que todos os finais de tarde o vento parava, proporcionando um surf bem divertido. Como o mar seguiu baixando, chegou num tamanho que comecei a usar a 6 pés. Os tubos foram substituídos por manobras, e o crowd engrossou de vêz, pois como em qualquer lugar do mundo, quando as merrecas aparecem, junto com elas aparecem "novos" surfistas. De qualquer maneira, vale ressaltar que, se eu somar a esta a experiência das minhas outras duas viagens para lá, é possível afirmar que até nisto Puerto funciona como uma máquina: agosto, setembro e outubro é a época mais constante, com boas e grandes ondas. Novembro, dezembro e janeiro é o período da merrecagem, "bom para fazer turismo". E fevereiro, março e abril é quando o mar começa a crescer e aparecem as primeiras grandes ondulações. Agora está faltando eu ir para lá no trimestre maio/junho/julho para descobrir como é ...
HOSPITALIDADE
Os mexicanos tem uma simpatia muito grande pelos brasileiros, desde que ganhamos a Copa de 70 por lá. São muitas semelhanças entre nós: o gosto pelo futebol, a língua parecida, o sangue latino e o comportamento hospitaleiro, característico dos povos latinos. Ao contrário de muito pico aqui mesmo no Brasil, bastava identificar-me como brasileiro que já recebia um largo sorriso e a pergunta mais freqüente: "tienes tablas para viender?" Para ilustrar bem esta simpatia e hospitalidade, conto uma situação que vivi. Ao surfar uma direita pequena e longa, acelerei o que pude pois ela estava fechando um pouco. Com bastante velocidade, aproximei-me de uma junção no final da onda e comecei a ouvir gritos frenéticos – não do tipo que te dá força, mas sim avisando que havia alguém em baixo. Percebendo que tudo estava sob controle, fui para a manobra e a completei, passando muito perto do gritão, que era um mexicano forte e cabeludo, até meio mal encarado. O cara começou a me xingar e reclamar de mim naquele típico comportamento do local do pico que se ofende se um desconhecido passa perto demais. Eu simplesmente virei para ele e com um sorriso, pedi-lhe (em espanhol) que se acalmasse, inclusive apontando para o adesivo No Stress no bico da minha prancha. Quando se deu conta de que eu era brasileiro, o cara mudou completamente, baixou a voz e começou a conversar comigo numa boa! Apresentou-se, perguntou meu nome, pediu-me informações sobre o Brasil e, como não poderia deixar de ser, perguntou se eu tinha pranchas para vender. Ficamos amigos e até trouxe comigo o email do "pulpo" (polvo) para continuar mantendo contato. Num momento em que o clima estava super-hostil para os estrangeiros, os locais nos liberavam suas ondas pelo simples fato de sermos brasileiros. Inclusive no final de nossa estada por lá, já ficávamos junto com a turma de locais na beira da praia e fazíamos nossas refeições sentados na mesma mesa que eles.
Em Puerto, a regra do "repeite para ser respeitado" funciona. Mesmo sabendo da hospitalidade dos mexicanos, procuramos adotar uma postura de espera, aguardando que partisse deles o primeiro contato. Desde o início mostramos aos locais que estávamos cientes de que éramos visitantes e, como tal, iríamos seguir suas regras. Funcionou.
CONCLUSÃO
Por tudo o que está relatado acima, Puerto Escondido tem que ser incluida na lista de viagens de qualquer surfista. Tem ótimas ondas, é barato, é agradável, o clima é maravilhoso e o principal: você se sente em casa. Principalmente para nós surfistas gaúchos, acostumados aos nossos quebra-côcos, o "Pipeline Mexicano" é uma pós-graduação em tubos.
Boas ondas.
A aparência da cidade lembra muito aquilo que se vê nos filmes de TV sobre o México. A arquitetura é típica e, as construções mais modernas, não fogem muito do estilo clássico. A zona freqüentada pelos turistas resume-se a um pequeno "centrinho", com uma rua lotada de restaurantes e pequenas lojas vendendo desde produtos do artesanato local até surfshops cheias de importados. Também há a rua à beira-mar, na praia de Zicatela, onde está situado o famoso "Beachbreak" – paraíso dos surfistas. Nesta rua, pode-se encontrar hotéis e restaurantes para todos os gostos e bolsos, além de vários cyber-cafés, casa de câmbio, lojinhas de moda-praia e surfshops. Bem no início da rua, convenientemente chamada "Calle del Morro" (Rua do Morro), está o Hotel Santa Fé, salgado para o bolso mas perfeito para os que não abrem mão de conforto. Seguindo em direção ao meio da praia, estão os outros hotéis (Arco-íris, Acuario e Ines) mais freqüentados pela galera, devido não só ao preço mais em conta, mas também porque estão localizados em frente ao pico. Além disso, todos eles têm piscina e alguns, como o Aquario, também oferecem o serviço de massagem que, dependendo de sua forma física, vai ser indispensável depois de alguns caldos bem fortes. E é exatamente ali que estão os points de encontro da galera: El Cafezito e El Viadero – dois restaurantes que, além de servirem ótimos "desayunos" (café da manhã), também oferecem um cardápio bem variado. Também é ali que à tardinha, por volta das 17h, aparecem os fotógrafos com o registro feito por eles do surf matinal. Atualmente existem três: Ruben Piña, Mike Levy e Miguel. Com estas três feras das lentes todas as manhãs a postos, é garantido que a sua melhor onda sempre será fotografada. E se realmente for uma boa onda, provavelmente será registrada pelos três com direito a fotos seqüenciais, pois todos usam motordrive em suas câmeras. Isto nem sempre é vantajoso, pois para garantir que no dia seguinte sua melhor onda não seja boicotada por nenhum deles, você se vê obrigado a comprar todas as fotos, o que pode significar um bom desfalque ao seu bolso. O valor médio de cada foto é US$ 2,5. Agora faça o cálculo, mas lembre-se de multiplicar por três fotógrafos: um bom tubo pode gerar umas 12 fotos. E não se esqueça de levar em consideração que a possibilidade de você pegar vários tubos bons numa mesma manhã é muito grande, ou seja, leve uma grana extra só para comprar fotos. E só para vocês terem idéia, eu comprei 45 fotos!
O clima em Puerto é tropical, ou seja, calor o ano inteiro. No inverno, de outubro à abril, a temperatura é agradável à noite, por volta de uns 20 a 22 graus, e durante o dia pode chegar aos 30. O engraçado é que a época das ondas em Puerto não é no inverno e sim no verão, que vai de maio à setembro. Nesta época, além de ondas que podem chegar fácil aos 18 pés, a temperatura não baixa de 30 graus nem à noite. E durante o dia, chega aos 40! Também é neste período que chove por lá, normalmente no final da tarde. O vento é um caso à parte. Todos os dias acontece exatamente a mesma coisa: amanhece terral e lá pelas 11h da manhã vira para maral. Dependendo da época do ano, à tardinha, o vento pode parar, proporcionando um final de tarde de boas ondas no Beachbreak.
Mas o surf em Puerto não se restringe ao Beachbreak. A distância de uma caminhada (ou US$ 2 de táxi) está um dos melhores point breaks do mundo: La Punta. Localizada no canto sul da praia de Zicatela, La Punta é uma esquerda longa e forte com diversas seções manobráveis. É a pedida certa para relaxar depois da adrenalina do Beachbreak na manhã. Mas também existem outras opções longe de Playa Zicatela. Ao norte, ainda em Puerto Escondido, há um pico chamado Carrizarillo, que é o paraíso das merrecas. Quando o mar está grande, nesta pequena baía quebram ótimas marolas de até um metro. Seguindo em direção ao norte, mais uns 50km, está Roca Blanca, um point break de direitas que, além de oferecer ótimas ondas, tem um visual deslumbrante. Só há um problema: é preciso um bom swell para Roca Blanca funcionar.
Em direção ao sul, há uma infinidade de beachbreaks até se chegar a Huatulco, uma espécie de "Acapulco miniatura" devido aos vários resorts e campos de golfe. É uma cidade linda, cheia de lugares pitorescos e praias maravilhosas, mas sem ondas. Na verdade, é alguns quilômetros ao sul de Huatulco que são encontradas as melhores ondas da região depois de Puerto Escondido: Barra de La Cruz. Point break de direitas longas e perfeitas que quebram quando há um swell de pelo menos 6 pés em Puerto. Voltada para o sudoeste, nesta baía o sol nasce no mar e se põe na terra. E isto é muito engraçado, considerando-se que no Pacífico o pôr-do-sol é no mar. Além deste pico, nesta região existem vários secrets escondidos entre as formações rochosas, caracteríticas da paisagem local.
DINHEIRO
No período em que estivemos em Puerto, a cotação do dólar em relação ao peso mexicano era de 10 para um, o que tornava fácil calcular o valor das coisas. Uma refeição custa em torno de US$ 6. Uma cerveja long neck ou um refrigerante, US$ 2, e uma diária num hotel, em torno de US$ 15 por pessoa (sem café da manhã). O transporte, quando necessário, é feito de táxi, que não possui taxímetro. Uma corrida do aeroporto até a beira da praia (onde estão os hotéis) custa US$ 3,5. Até o centro ou à Punta, US$ 2, e isto é tudo porque não há outros lugares para se ir em Puerto, a não ser que você queira visitar as zonas residenciais e afastadas do mar. Também há a possibilidade de você contratar um táxi para ir a Huatulco por US$ 30.
Equipamentos de surf são muito caros em Puerto. Aliás, isto merece um comentário. Você vende suas pranchas facilmente lá. E isto pode ser um ótimo negócio, uma vez que as pranchas levadas para Puerto dificilmente funcionariam aqui. Uma prancha usada, em bom estado, pode ser vendida em Puerto facilmente por US$ 160, exatamente o valor de uma prancha nova aqui. Além disso, suas bermudas, camisetas, bonés e até chinelos Havaianas são desejados pelos locais. Dá pra fazer a mala. Também é preciso comentar que a Mexicana/Aerocaribe, única empresa que voa para lá, cobra US$ 55 pelo pacote de pranchas. Isto significa que, caso você não venda todas suas pranchas, pagará um total de US$ 110 só para o transporte das mesmas.
Mas se você é daqueles que gostam de fazer "rancho" em freeshop, aproveite o tempo de espera pelo vôo para o Brasil, quando estiver no aeroporto da Cidade do México. Depois da reforma realizada em 99/2000, foi acrescentada uma nova ala internacional que deve ter um quilômetro só com freeshops. É uma ao lado da outra e me chamou a atenção que muitas delas são do tipo "qualquer coisa por US$ 10". É possível fazer boas barganhas. Mas não se engane: coisas típicas do México, como uma garrafa de Tequila por exemplo, são muito mais caras no freeshop.
Uma dica legal: quando estiver voltando, ao chegar no aeroporto da Cidade do México, não troque seus pesos por dólar. Vão lhe pagar muito pouco e nos freeshops da ala internacional é possível pagar suas compras com pesos, utilizando uma cotação mais interessante.
EQUIPAMENTO
Pranchas para surfar em Puerto Escondido são fáceis de fazer: tem que ter remada e, como o objetivo é o tubo, tem de ser grande e esticada. A fórmula é básica. Quanto antes você conseguir entrar na onda, mais controle e condições de colocar a prancha no trilho. O problema é quando o mar começa a baixar, ou quando você vai surfar em outros points. Minha sugestão é que você leve duas pranchas grandes para o Beachbreak – uma para surfar ondas de 8 pés plus e outra para surfar de 4 a 6 pés – e duas pranchas para surfar os outros picos – sua prancha do dia-a-dia e mais uma para quando o mar dá uma crescida. Para o meu uso, este quiver seria o seguinte: 6'0", 6'4", 7'0" e 7'6".
Uma bermuda e uma lycra dão conta do recado o ano inteiro – a não ser que você dê o azar que dei desta vez e encontre uma situação totalmente atípica: água e vento frios! Mas um short cavado teria resolvido o problema. Além disso, muito protetor solar. Cordinhas estão em baixa por lá. Além do pico ser muito próximo à praia, a cordinha pode ser a responsável por segurar sua prancha no local exato da guilhotina, numa vaca. Vi muitas pranchas quebrarem ao meio porque a cordinha as manteve na zona de impacto logo após um tubo sem sucesso. Eu usei direto, mas dei sorte. Não quebrei nenhuma.
A VIAGEM
A idéia de viajar para Puerto Escondido pela terceira vez surgiu para mim tão rápido como os tubos do Beachbreak. Meu amigo Toshio ligou dando a idéia na quarta-feira, e na quinta-feira seguinte estávamos embarcando. Mal tive tempo de providenciar as pranchas, arrumar as malas e despedir-me dos familiares. Quando vi, já era véspera da partida. No vôo de ida (11 horas somando-se o fuso de menos três), um filme foi passando na minha cabeça. Lembrei-me das outras vezes em que havia feito o mesmo caminho. Fiquei tentando imaginar o que me aguardava, pois eu tinha conhecido dois Puerto totalmente diferentes. Na primeira vez que fui, em 1987, era época de ondas: agosto. Fiquei lá 40 dias e peguei as maiores e melhores ondas da minha vida. La Punta quebrou todos os dias e, no melhor deles, com 10 pés. Tenho fotos minhas surfando no Beachbreak, ondas que parecem gigantescas se comparadas às da minha segunda viagem para Puerto, quando fui para passar o reveillon. Não era o período das ondas. Ao contrário da primeira ida, Puerto estava lotada de gente. O turismo havia invadido a cidade e, conseguir um quarto de hotel, havia se transformado numa tarefa de gincana. Dentro d'água não era diferente. Crowds intensas disputando ondas de, no máximo, 4 a 5 pés. Foi uma semana de merrecas, mas a minha maior decepção foi La Punta: totalmente adormecida.
Minha ansiedade crescia a cada hora naquele vôo. Mal podia esperar para chegar novamente em Puerto Escondido. O pior é que chegaríamos no México depois do vôo diário para lá, ou seja, teríamos que passar uma noite na Cidade do México antes de embarcarmos para o destino final.
PUERTO
A sensação de se chegar a Puerto Escondido é sempre igual: gruda-se os olhos na janela do avião e vai-se acompanhando o desenho do litoral mexicano todo recortado, tentando adivinhar se aquelas marcas de espuma são ondas de verdade ou só marolas quebrando. Depois, ao sair do avião, o choque térmico: calor e vento morno. No caminho para o hotel, avista-se o Beachbreak a distância, e o coração pula, porque sempre, por menor que esteja o mar, tem-se a impressão de que está enorme.
A partir daí, começava a rotina de Puerto que é sempre a mesma: dormir e acordar cedo. Normalmente, o surf durava do amanhecer até por volta das 11h, e aí íamos fazer o "desayuno". Após o café, que consistia em panquecas, ovos mexidos, frutas e suco de laranja, ou íamos checar a Internet ou ficávamos vagabundeando por ali, com os locais, pois outra vez La Punta estava adormecida.
Os locais merecem um comentário. Pela primeira vez, me entrosei com eles. Aliás, precisa ser dito que a quantidade, principalmente de bodyboarders, cresceu assustadoramente. E os caras estão arrebentando. Desde o veterano Roberto Salinas (que apesar de ser o único que não se mistura, é digno de crédito por arrepiar numa 5'9" com 30 anos de idade), até as jovens promessas como Oscar Moncada, com uma colocação para os tubos impressionante. Além destes, há o embaixador de Puerto, Carlos "Coco" Nogales. Coco, embora seja um surfista profissional totalmente bancado pela Hurley, é muito humilde. O cara é gente finíssima. Fazia questão de nos procurar, nos chamava para fazer as refeições com ele, nos deu presentes (entre eles, a revista Surfer cujo entrevistado do mês é ele), enfim, um amigaço. Mas não se engane. Ele também sabe ser agressivo com quem não lhe respeita. Apareceram alguns havaianos por lá, e ele tratou de mostrar suas garras. Tudo começou quando teve um problema com os irmãos Irons durante a passagem do Circuito Mundial pela Europa. Depois disso, Coco foi apedrejado pelos locais na saída de sua bateria no trials do Pipe Masters. A partir daí, os surfistas mexicanos, liderados por Coco, abriram guerra contra os havaianos.
Além destes, é preciso mencionar ainda Roger, um goofy footer que lembra o estilo de Gery Lopez ao surfar. Calmo, fala mansa, chega à beira da praia tranquilamente com sua esposa portuguesa e seu filhinho recém-nascido e monta seu guarda-sol. Quando entra n'água, domina o pico! Tem também o Chico. Brasileiro, mora há doze anos entre Puerto Escondido e Santa Cruz, na Califórnia. Também tem o Raul, primeiro mexicano a vencer uma etapa do WQS, na Venezuela. Este arrebenta. Quando você pensa que ele vai colocar para um tubo, ele dá na cara. Quando você pensa que a onda vai fechar, ele passa por dentro.
Também tivemos a companhia de outros brasileiros: o carioca Alexandre Acioly, local da Barra, e o paulista Rodrigo Moratelli, acompanhado de sua esposa, Milena, que estava grávida de cinco meses. Rodrigo foi o responsável pelo melhor e mais profundo tubo entre a galera brasileira. Os fotógrafos locais, que ganham a vida vendendo as fotos aos surfistas estrangeiros, fizeram a mala com o Rodrigo. Cada um deles (e são três) fez umas 12 fotos em seqüência deste tubo. Mas é uma lembrança que o Rodrigo certamente vai se orgulhar de mostrar para o filho que está chegando, quando ele estiver grandinho.
AS ONDAS
No dia em que chegamos, fomos avisados: o mar estava subindo e fazia dois meses que não entrava um swell decente. Ao acordar no dia seguinte, já dava pra ouvir, do quarto do hotel, o barulho das ondas quebrando no pico em frente. Ainda deitado na cama, a adrenalina começou a correr. Ao chegar à beira da praia, uma cena impressionante: uma série com 8 pés sólidos quebrando perfeita, abrindo para os dois lados. Já dentro d'água, ao remar para a primeira onda, surpresa: além de um backwash que eu nunca tinha visto em Puerto, havia uma corrente contra muito forte, e o resultado é que para entrar na onda era necessário uma remada muito mais forte do que o normal.
Mas o pior não era isso: a água, para surpresa de todos, inclusive dos mexicanos, estava gelada. Um short manga curta estava valendo ouro! Não estávamos acreditando no que acontecia, pois, além de estarmos passando frio, simplesmente nossas pranchas pareciam pequenas para as condições. Eu estava com uma 7 pés que parecia uma 6'4" no drop, e isto tornou muito difícil nossa adaptação às condições. Mas tudo bem, após muitos caldos, finalmente começaram a sair os "canudos" que tinhamos vindo buscar. Depois dos três dias grandes, a ondulação de norte começou a enfraquecer, e uma nova de sul, com água mais quente, começou a entrar.
Puerto começava a ficar do jeito que eu conhecia, com água morna e as ondas fechando um pouco mais, porém, pequenas. A vantagem desta frente de sul que entrou, além da água morna, é que todos os finais de tarde o vento parava, proporcionando um surf bem divertido. Como o mar seguiu baixando, chegou num tamanho que comecei a usar a 6 pés. Os tubos foram substituídos por manobras, e o crowd engrossou de vêz, pois como em qualquer lugar do mundo, quando as merrecas aparecem, junto com elas aparecem "novos" surfistas. De qualquer maneira, vale ressaltar que, se eu somar a esta a experiência das minhas outras duas viagens para lá, é possível afirmar que até nisto Puerto funciona como uma máquina: agosto, setembro e outubro é a época mais constante, com boas e grandes ondas. Novembro, dezembro e janeiro é o período da merrecagem, "bom para fazer turismo". E fevereiro, março e abril é quando o mar começa a crescer e aparecem as primeiras grandes ondulações. Agora está faltando eu ir para lá no trimestre maio/junho/julho para descobrir como é ...
HOSPITALIDADE
Os mexicanos tem uma simpatia muito grande pelos brasileiros, desde que ganhamos a Copa de 70 por lá. São muitas semelhanças entre nós: o gosto pelo futebol, a língua parecida, o sangue latino e o comportamento hospitaleiro, característico dos povos latinos. Ao contrário de muito pico aqui mesmo no Brasil, bastava identificar-me como brasileiro que já recebia um largo sorriso e a pergunta mais freqüente: "tienes tablas para viender?" Para ilustrar bem esta simpatia e hospitalidade, conto uma situação que vivi. Ao surfar uma direita pequena e longa, acelerei o que pude pois ela estava fechando um pouco. Com bastante velocidade, aproximei-me de uma junção no final da onda e comecei a ouvir gritos frenéticos – não do tipo que te dá força, mas sim avisando que havia alguém em baixo. Percebendo que tudo estava sob controle, fui para a manobra e a completei, passando muito perto do gritão, que era um mexicano forte e cabeludo, até meio mal encarado. O cara começou a me xingar e reclamar de mim naquele típico comportamento do local do pico que se ofende se um desconhecido passa perto demais. Eu simplesmente virei para ele e com um sorriso, pedi-lhe (em espanhol) que se acalmasse, inclusive apontando para o adesivo No Stress no bico da minha prancha. Quando se deu conta de que eu era brasileiro, o cara mudou completamente, baixou a voz e começou a conversar comigo numa boa! Apresentou-se, perguntou meu nome, pediu-me informações sobre o Brasil e, como não poderia deixar de ser, perguntou se eu tinha pranchas para vender. Ficamos amigos e até trouxe comigo o email do "pulpo" (polvo) para continuar mantendo contato. Num momento em que o clima estava super-hostil para os estrangeiros, os locais nos liberavam suas ondas pelo simples fato de sermos brasileiros. Inclusive no final de nossa estada por lá, já ficávamos junto com a turma de locais na beira da praia e fazíamos nossas refeições sentados na mesma mesa que eles.
Em Puerto, a regra do "repeite para ser respeitado" funciona. Mesmo sabendo da hospitalidade dos mexicanos, procuramos adotar uma postura de espera, aguardando que partisse deles o primeiro contato. Desde o início mostramos aos locais que estávamos cientes de que éramos visitantes e, como tal, iríamos seguir suas regras. Funcionou.
CONCLUSÃO
Por tudo o que está relatado acima, Puerto Escondido tem que ser incluida na lista de viagens de qualquer surfista. Tem ótimas ondas, é barato, é agradável, o clima é maravilhoso e o principal: você se sente em casa. Principalmente para nós surfistas gaúchos, acostumados aos nossos quebra-côcos, o "Pipeline Mexicano" é uma pós-graduação em tubos.
Boas ondas.
terça-feira, 25 de fevereiro de 2003
Ainda em serviço
É isso aí: ainda estou em serviço!
Depois de ter vivido o auge da minha carreira competitiva no final dos anos 80, início dos 90, quando entre outros títulos destaco o de Campeão do Circuito Renner e o de vice campeão do Confronto RS x SC, volto a ter o prazer de ser patrocinado para fazer o que mais gosto: surfar.
Confiando na minha experiência como "tube rider" a No Stress resolveu bancar minha ida para Puerto Escondido, no México, também conhecida como "Pipeline Mexicano" devido ao seu violento quebra côco, capaz de proporcionar tubos comparáveis aos da famosa praia havaiana. O material fotográfico desta viagem servirá de motivo para futuros trabalhos promocionais da No Stress.
Embarco para o México nesta quinta-feira, dia 27 e ficarei lá até domingo, dia 09 de março.
Também é preciso dizer que esta viagem não aconteceria se não fosse a ajuda importantíssima da Tricoast Surfboards e de meu grande amigo Paulo Buarque.
Boas ondas.
Depois de ter vivido o auge da minha carreira competitiva no final dos anos 80, início dos 90, quando entre outros títulos destaco o de Campeão do Circuito Renner e o de vice campeão do Confronto RS x SC, volto a ter o prazer de ser patrocinado para fazer o que mais gosto: surfar.
Confiando na minha experiência como "tube rider" a No Stress resolveu bancar minha ida para Puerto Escondido, no México, também conhecida como "Pipeline Mexicano" devido ao seu violento quebra côco, capaz de proporcionar tubos comparáveis aos da famosa praia havaiana. O material fotográfico desta viagem servirá de motivo para futuros trabalhos promocionais da No Stress.
Embarco para o México nesta quinta-feira, dia 27 e ficarei lá até domingo, dia 09 de março.
Também é preciso dizer que esta viagem não aconteceria se não fosse a ajuda importantíssima da Tricoast Surfboards e de meu grande amigo Paulo Buarque.
Boas ondas.
domingo, 15 de setembro de 2002
O Surf Gaúcho andou para trás
Nos útimos quinze anos, o surf Gaúcho passou da condição de “um dos mais organizados do país” para um dos “mais desorganizados do país”.
Enquanto pensava em como iniciar esta coluna, sentado em frente ao meu Mac, comecei a olhar para o poster na parede e voltei no tempo. Voltei para o dia em que a foto do poster foi tirada. Era agosto de 1987 e eu estava em Puerto Escondido, no México. Naquele ano, eu era o campeão gaúcho de surf e tudo o que eu tinha na cabeça era o surf. Estava vivendo do surf, recebendo dinheiro de patrocinadores e da venda de premiações ganhas em campeonatos. Era muito dinheiro. E assim era o surf gaúcho naquela época. Alguns anos mais tarde, deixei de lado as competições e fui trabalhar na Brasil Surf. Para quem não sabe ou é muito jovem para saber, a Brasil Surf foi uma marca de surfwear criada aqui no estado, que se transformou numa das maiores do país. Tinha a melhor equipe de surf que este estado já viu e patrocinou os melhores e maiores eventos de surf de que se tem notícia até hoje neste estado. Na mesma época, o surf brasileiro começou a arrebentar no circuito mundial e, de lá prá cá, as coisas boas não pararam mais de acontecer para o surf...Brasileiro. É isto: para o surf Brasileiro, porque para o surf Gaúcho, ali começou a decadência. As Associações locais viraram favelas, a Federação Gaúcha nunca mais organizou nada no nível dos clássicos Circuitos Renner e nenhuma marca gaúcha conseguiu montar uma equipe como a da Brasil Surf. O resultado de tudo isso: andamos para trás. Nossos atletas penam para conseguir pagar seu treino e a imprensa faz de conta que não existe surf neste estado. É deprimente. Quando no início deste ano a ASTRI e a ASC apresentaram seus calendários prevendo um total (as duas juntas) de dez etapas até dezembro, sugeri que as duas associações unificassem seus Circuitos e propusessem para a FGS que homologasse este como sendo o Circuito AM de 2002. Ninguém me ouviu e o resultado está aí. É muita desorganização para dar certo.
Boas ondas.
Enquanto pensava em como iniciar esta coluna, sentado em frente ao meu Mac, comecei a olhar para o poster na parede e voltei no tempo. Voltei para o dia em que a foto do poster foi tirada. Era agosto de 1987 e eu estava em Puerto Escondido, no México. Naquele ano, eu era o campeão gaúcho de surf e tudo o que eu tinha na cabeça era o surf. Estava vivendo do surf, recebendo dinheiro de patrocinadores e da venda de premiações ganhas em campeonatos. Era muito dinheiro. E assim era o surf gaúcho naquela época. Alguns anos mais tarde, deixei de lado as competições e fui trabalhar na Brasil Surf. Para quem não sabe ou é muito jovem para saber, a Brasil Surf foi uma marca de surfwear criada aqui no estado, que se transformou numa das maiores do país. Tinha a melhor equipe de surf que este estado já viu e patrocinou os melhores e maiores eventos de surf de que se tem notícia até hoje neste estado. Na mesma época, o surf brasileiro começou a arrebentar no circuito mundial e, de lá prá cá, as coisas boas não pararam mais de acontecer para o surf...Brasileiro. É isto: para o surf Brasileiro, porque para o surf Gaúcho, ali começou a decadência. As Associações locais viraram favelas, a Federação Gaúcha nunca mais organizou nada no nível dos clássicos Circuitos Renner e nenhuma marca gaúcha conseguiu montar uma equipe como a da Brasil Surf. O resultado de tudo isso: andamos para trás. Nossos atletas penam para conseguir pagar seu treino e a imprensa faz de conta que não existe surf neste estado. É deprimente. Quando no início deste ano a ASTRI e a ASC apresentaram seus calendários prevendo um total (as duas juntas) de dez etapas até dezembro, sugeri que as duas associações unificassem seus Circuitos e propusessem para a FGS que homologasse este como sendo o Circuito AM de 2002. Ninguém me ouviu e o resultado está aí. É muita desorganização para dar certo.
Boas ondas.
quarta-feira, 10 de abril de 2002
Surf X Pesca: quem tem razão?
Numa discussão entre organizados e não organizados, surfistas saem perdendo para os pescadores e correm o risco de irem para a cadeia por surfarem ao lado da plataforma de Tramandaí.
Em 1988 foi criada uma lei que determinava a obrigatoriedade de demarcação das áreas de pesca, lazer ou recreação por parte dos municípios com orla marítima e lacustre (ou pluvial). Por esta razão, para cumprir a lei, a Prefeitura de Tramandaí demarcou as áreas de pesca e surf no seu município. Portanto, lá em 1988, ficou estabelecido numa reunião que não contou com a presença de surfistas, que sería proibida a prática do surf ao lado da plataforma - para ser mais exato, a menos de 200m de cada lado. Todos sabem que esta lei nunca foi respeitada e o que se viu ao longo de todos estes anos de convivência entre surfistas e pescadores foram algums atritos isolados. Sempre ouve do lado de lá e do lado de cá alguns exaltados, fora isso, sempre deu para surfar e pescar numa boa, numa convivência quase pacífica.
Só que o crowd vem crescendo assustadoramente em Tramandaí e isto acabou trazendo consequências desagradáveis tanto para os pescadores quanto para os próprios surfistas. O número de “novatos” na água cresceu de maneira desordenada e o resultado é que hoje, em qualquer dia, com qualquer condição de surf, sempre há uma dúzia de surfistas em qualquer lado da plataforma. A convivência com os pescadores já não é mais tão pacífica. As discussões tornaram-se frequentes e eles resolveram tomar uma atitude. No dia 16 de maio deste ano, reuniram-se o representante dos pescadores com as autoridades municipais (o representante do surf não esteve presente) e decidiram que a partir de setembro vão organizar blitzes periódicas para fazer respeitar as áreas determinadas na lei - ou seja: surfista que for pego surfando ao lado da plataforma, será preso!
E o pior: estarão presentes nestas blitzes além das autoridades, a imprensa, que será avisada com antecedência.
Deu para imaginar o quadro? Uma foto na capa da Zero Hora, com um surfista entrando num camburão - imaginem a manchete...ou então no noticiário das 7h na RBS TV. Nossa, é bom nem pensar nas consequências disso para o mercado do surf.
Mas antes que você diga alguma coisa, concorde com o seguinte: eles são organizados e estão fazendo valer a vontade do grupo deles. O que podemos fazer?
Uma dica: já estamos reunindo uma frente de trabalho para resolver esta situação, mas por enquanto, tome cuidado ao decidir se vai surfar o Backdoor ou a Malvina.
Boas ondas.
Em 1988 foi criada uma lei que determinava a obrigatoriedade de demarcação das áreas de pesca, lazer ou recreação por parte dos municípios com orla marítima e lacustre (ou pluvial). Por esta razão, para cumprir a lei, a Prefeitura de Tramandaí demarcou as áreas de pesca e surf no seu município. Portanto, lá em 1988, ficou estabelecido numa reunião que não contou com a presença de surfistas, que sería proibida a prática do surf ao lado da plataforma - para ser mais exato, a menos de 200m de cada lado. Todos sabem que esta lei nunca foi respeitada e o que se viu ao longo de todos estes anos de convivência entre surfistas e pescadores foram algums atritos isolados. Sempre ouve do lado de lá e do lado de cá alguns exaltados, fora isso, sempre deu para surfar e pescar numa boa, numa convivência quase pacífica.
Só que o crowd vem crescendo assustadoramente em Tramandaí e isto acabou trazendo consequências desagradáveis tanto para os pescadores quanto para os próprios surfistas. O número de “novatos” na água cresceu de maneira desordenada e o resultado é que hoje, em qualquer dia, com qualquer condição de surf, sempre há uma dúzia de surfistas em qualquer lado da plataforma. A convivência com os pescadores já não é mais tão pacífica. As discussões tornaram-se frequentes e eles resolveram tomar uma atitude. No dia 16 de maio deste ano, reuniram-se o representante dos pescadores com as autoridades municipais (o representante do surf não esteve presente) e decidiram que a partir de setembro vão organizar blitzes periódicas para fazer respeitar as áreas determinadas na lei - ou seja: surfista que for pego surfando ao lado da plataforma, será preso!
E o pior: estarão presentes nestas blitzes além das autoridades, a imprensa, que será avisada com antecedência.
Deu para imaginar o quadro? Uma foto na capa da Zero Hora, com um surfista entrando num camburão - imaginem a manchete...ou então no noticiário das 7h na RBS TV. Nossa, é bom nem pensar nas consequências disso para o mercado do surf.
Mas antes que você diga alguma coisa, concorde com o seguinte: eles são organizados e estão fazendo valer a vontade do grupo deles. O que podemos fazer?
Uma dica: já estamos reunindo uma frente de trabalho para resolver esta situação, mas por enquanto, tome cuidado ao decidir se vai surfar o Backdoor ou a Malvina.
Boas ondas.
sábado, 4 de agosto de 2001
Porrada na Revista Veja
A reação dos surfistas
Os outdoors de divulgação da edição 1.715 de VEJA diziam que o dicionário Houaiss continha 228.500 palavras, inclusive as oito que os surfistas conhecem. A brincadeira dos publicitários não pegou bem entre os curtidores de ondas, que reagiram de pronto. Confira algumas declarações que foram enviadas à redação da revista (começo pela minha):
Muita ironia
Sou surfista há mais de 25 anos e como vocês podem perceber pelo texto que estou digitando - sem a ajuda de ninguém - consigo não só formular uma idéia, mas também transcrevê-la com clareza. Que vergonha a demonstração de preconceito. Ficou claro que quem teve a idéia de fazer a ironia envolvendo surfistas, além de preconceituoso, não goza de muita inteligência.
Giovanni Mancuso
Coisa do passado
Chamar a atenção para algum produto criando estereótipos não dá certo, ainda mais quando se trata de praticantes do segundo esporte mais querido do Brasil. Surfista ignorante e troglodita é coisa do passado. Hoje, vemos surfistas empresários, médicos, engenheiros, publicitários e advogados. E aposto que todos sabem mais que oito palavras.
José Antônio S. Albrecht
Preconceito
Gostaria de manifestar minha decepção quanto à mensagem extremamente preconceituosa que está exposta nos outdoors espalhados pelo país. Tenho 26 anos, surfo há 12, fui durante seis anos executivo de uma multinacional, falo quatro idiomas e hoje tenho a minha própria empresa em sociedade com outro surfista. Sempre busquei no surfe o aprimoramento do meu equilíbrio físico e mental para vencer a pressão de uma vida atribulada.
Daniel Campaner
Empresário surfista
O Sr. Jorge Gerdau, um dos nossos maiores empresários, foi um dos pioneiros do surf no sul do Brasil. Imagine se ele fosse burro mesmo, como leva a crer esse anúncio.
Eduardo Schumacher
Esporte saudável
O surfe é um dos esportes mais praticados no Brasil e no mundo. Trabalho com o surfe há 8 anos e ganho o meu sustento com ele. Caros amigos, o surfista é um cara que viaja para pegar ondas, fala sempre mais de uma língua, é uma pessoa saudável, inteligente e preocupa-se muito com o meio ambiente.
diegomi@terra.com.br
Futuro advogado
Surfo de bodyboard e sou estudante de direito há dois anos e meio e não me considero ignorante por escolher um esporte saudável e emocionante. Acredito que o preconceito com os surfistas é que seria uma atitude ignorante.
Karen Machado
Indignação I
Eu surfo há anos, faço faculdade de análise de sistemas e estágio em uma grande empresa de desenvolvimento. Procurem informações antes de falar de algo que não conhecem.
Fernando Lima
Indignação II
Sou surfista, trabalho numa empresa muito conceituada e não vejo motivos para o que está escrito nos outdoors. Isso é uma falta de respeito com a comunidade do surfe.
Marco Zamlutti
Falta informação
Foi com muita tristeza que eu vi o outdoor. Sou administrador de empresas, formado pela Universidade Federal do Rio Grande Do Sul, e surfista desde os nove anos de idade. Vocês deveriam ter um breve conhecimento dos costumes e hábitos de seus leitores, bem como dos formadores de opinião.
Fabiano Matos
Decepção
Eu sinceramente li algumas vezes o outdoor para ter certeza que era o que eu estava lendo mesmo. Fiquei indignado com o tom do preconceito da mensagem.
Fernando
Ganha-pão
Achei infeliz a mensagem exposta nos outdoors. Foi uma propaganda infeliz. Os surfistas, como qualquer outro profissional, também conquistam o seu ganha-pão com dignidade.
Ana Luiza
Imagem distorcida
Manifesto meu repúdio pela frase espalhada em diversos outdoors pelo Brasil, a qual subestima a inteligência dos surfistas e apenas contribui para denegrir a imagem de um dos esportes mais significativos e representativos de nosso país. Surfo, adoro ir à praia nos finais de semana - assim como outros milhões de brasileiros que fazem deste o segundo esporte mais praticado no Brasil. Me senti diretamente atingido pela propaganda.
Rafael Kasper
Bronca
Como surfista e leitor desta revista, estou decepcionado com a campanha publicada em outdoors nas ruas, ridicularizando minha profissão e esporte.
Rodrigo Magalhães
Só oito palavras?
Que pena vocês terem uma visão tão distorcida dos surfistas. Achar que só sabem oito palavras! Isso apenas mostra o conhecimento limitado de vocês quanto ao esporte e os seus praticantes.
Hakim Al-Qureshi
Gíria não é burrice
Achei uma falta de criatividade e discriminação com os surfistas. Aposto que há muitos surfistas que fariam uma campanha muito mais criativa, sem criticar um estilo de vida sadio. Surfista fala muita gíria, mas isso não quer dizer que seja burro.
Alan Rosso da Silva
Uma agressão ao surfe
Que propaganda é essa que agride um dos esportes que tem a preservação ecológica e a igualdade entre todos no topo de seus objetivos? Faço faculdade, trabalho de segunda a sábado, faço parte de uma ação voluntária que ajuda pessoas com câncer e surfo!
Jéssica Wiest
Os outdoors de divulgação da edição 1.715 de VEJA diziam que o dicionário Houaiss continha 228.500 palavras, inclusive as oito que os surfistas conhecem. A brincadeira dos publicitários não pegou bem entre os curtidores de ondas, que reagiram de pronto. Confira algumas declarações que foram enviadas à redação da revista (começo pela minha):
Muita ironia
Sou surfista há mais de 25 anos e como vocês podem perceber pelo texto que estou digitando - sem a ajuda de ninguém - consigo não só formular uma idéia, mas também transcrevê-la com clareza. Que vergonha a demonstração de preconceito. Ficou claro que quem teve a idéia de fazer a ironia envolvendo surfistas, além de preconceituoso, não goza de muita inteligência.
Giovanni Mancuso
Coisa do passado
Chamar a atenção para algum produto criando estereótipos não dá certo, ainda mais quando se trata de praticantes do segundo esporte mais querido do Brasil. Surfista ignorante e troglodita é coisa do passado. Hoje, vemos surfistas empresários, médicos, engenheiros, publicitários e advogados. E aposto que todos sabem mais que oito palavras.
José Antônio S. Albrecht
Preconceito
Gostaria de manifestar minha decepção quanto à mensagem extremamente preconceituosa que está exposta nos outdoors espalhados pelo país. Tenho 26 anos, surfo há 12, fui durante seis anos executivo de uma multinacional, falo quatro idiomas e hoje tenho a minha própria empresa em sociedade com outro surfista. Sempre busquei no surfe o aprimoramento do meu equilíbrio físico e mental para vencer a pressão de uma vida atribulada.
Daniel Campaner
Empresário surfista
O Sr. Jorge Gerdau, um dos nossos maiores empresários, foi um dos pioneiros do surf no sul do Brasil. Imagine se ele fosse burro mesmo, como leva a crer esse anúncio.
Eduardo Schumacher
Esporte saudável
O surfe é um dos esportes mais praticados no Brasil e no mundo. Trabalho com o surfe há 8 anos e ganho o meu sustento com ele. Caros amigos, o surfista é um cara que viaja para pegar ondas, fala sempre mais de uma língua, é uma pessoa saudável, inteligente e preocupa-se muito com o meio ambiente.
diegomi@terra.com.br
Futuro advogado
Surfo de bodyboard e sou estudante de direito há dois anos e meio e não me considero ignorante por escolher um esporte saudável e emocionante. Acredito que o preconceito com os surfistas é que seria uma atitude ignorante.
Karen Machado
Indignação I
Eu surfo há anos, faço faculdade de análise de sistemas e estágio em uma grande empresa de desenvolvimento. Procurem informações antes de falar de algo que não conhecem.
Fernando Lima
Indignação II
Sou surfista, trabalho numa empresa muito conceituada e não vejo motivos para o que está escrito nos outdoors. Isso é uma falta de respeito com a comunidade do surfe.
Marco Zamlutti
Falta informação
Foi com muita tristeza que eu vi o outdoor. Sou administrador de empresas, formado pela Universidade Federal do Rio Grande Do Sul, e surfista desde os nove anos de idade. Vocês deveriam ter um breve conhecimento dos costumes e hábitos de seus leitores, bem como dos formadores de opinião.
Fabiano Matos
Decepção
Eu sinceramente li algumas vezes o outdoor para ter certeza que era o que eu estava lendo mesmo. Fiquei indignado com o tom do preconceito da mensagem.
Fernando
Ganha-pão
Achei infeliz a mensagem exposta nos outdoors. Foi uma propaganda infeliz. Os surfistas, como qualquer outro profissional, também conquistam o seu ganha-pão com dignidade.
Ana Luiza
Imagem distorcida
Manifesto meu repúdio pela frase espalhada em diversos outdoors pelo Brasil, a qual subestima a inteligência dos surfistas e apenas contribui para denegrir a imagem de um dos esportes mais significativos e representativos de nosso país. Surfo, adoro ir à praia nos finais de semana - assim como outros milhões de brasileiros que fazem deste o segundo esporte mais praticado no Brasil. Me senti diretamente atingido pela propaganda.
Rafael Kasper
Bronca
Como surfista e leitor desta revista, estou decepcionado com a campanha publicada em outdoors nas ruas, ridicularizando minha profissão e esporte.
Rodrigo Magalhães
Só oito palavras?
Que pena vocês terem uma visão tão distorcida dos surfistas. Achar que só sabem oito palavras! Isso apenas mostra o conhecimento limitado de vocês quanto ao esporte e os seus praticantes.
Hakim Al-Qureshi
Gíria não é burrice
Achei uma falta de criatividade e discriminação com os surfistas. Aposto que há muitos surfistas que fariam uma campanha muito mais criativa, sem criticar um estilo de vida sadio. Surfista fala muita gíria, mas isso não quer dizer que seja burro.
Alan Rosso da Silva
Uma agressão ao surfe
Que propaganda é essa que agride um dos esportes que tem a preservação ecológica e a igualdade entre todos no topo de seus objetivos? Faço faculdade, trabalho de segunda a sábado, faço parte de uma ação voluntária que ajuda pessoas com câncer e surfo!
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