sábado, 7 de julho de 2018

WSL - JBay

WSL - FCS2 (Por Renato Ferreira Sachs)

Podemos analisar esta etapa em 3 aspectos: Parko, Toledo e Campeonato.

1- A Aposentadoria de Parko, sufista que junto com seus 2 camaradas de Coolangata (MF e Dingo), surgiram de uma onda feita pelo homem, desafiaram o reinado de um certo Rei (Slater) e seu Príncipe (Andy), o grupo unido desde pequeno como amigos, trouxe velocidade e alta performance para ondas de um suposto circuito dos sonhos. As pranchas evoluíram pelos pés destes camaradas, quilhas avançaram absurdamente para acompanhar as performances, treinamento físico incondicional e a parte tática estava no dna. Parko que junto com outro Rei (Curren) foi um dos maiores e mais copiados surfistas da história, a fluidez aliada ao balanço do corpo sobre a prancha é algo maravilhoso de se ver. A geração de velocidade é natural, aquele velho jargão: Parece Fácil.....mas acreditem não é... tem um currículo em competições que o coloca no panteão dos melhores surfistas competidores da história do surf. Assim como acontecerá com MF, sentiremos a sua falta. Mas temos Toledo!!!

2- A onda de Jbay pode ser comparada a uma Trestles anabolizada algumas vezes. Assim partimos do princípio de que quem treina numa saberá surfar a outra....e quando digo surfar, estou falando em demostrar todas as suas armas. É uma onda em que todos os seus predicados aparecem, quase um livro aberto, onde qualquer erro no controle da velocidade pode ser fatal, ou seja, para nós meros telespectadores fica fácil de saber quem é o melhor surfista por bateria, porque não se pode mascarar. Portanto o melhor surfista ganhará. Isto é fato e não tem negociação. Se Toledo foi majestoso no ano passado numa das melhores apresentações que o tour já assistiu, imagina agora, evoluido e conhecedor do caminho da vitória. Coloca-lo como principal candidato a ganhar esta etapa é uma obrigação, com ou sem tubarão, de base trocada, deitado, o que for!!! Toledo é o melhor surfista do planeta junto com GM. Suas performances em todos os 4 dias da competição foram estarrecedoras. O silêncio no palanque era de assustar, somente suspiros, todos imaginando: que perda de tempo seria ficar toda a janela de competição sabendo como seria o fim, exceto pela honra de fazer parte da elite e surfar sozinho uma das 3 melhores ondas do mundo sozinho. Qualquer atleta deve suar sangue quando tem que encarar um monstro de 60kg, que motivado pela sua família e suas pranchas mágicas, não tem um único objetivo a não ser conquistar o Título Mundial de Surf.

3- Podemos dizer que o modelo de campeonato que nós tivemos poderia ter alguns pequenos ajustes. A etapa foi espetacular, com pequenos vacilos, mas tudo dentro da normalidade de entendimento da natureza, aliada à visão de não misturar as 2 divisões: masculino e feminino. Seguem algumas observações e para não deixar de apontar os erros, vou descrever alguns que realmente achei muito escancarados:
- O primeiro call do round 1 foi precipitado;
- Jesse ganhou do Mickey que, como sempre, não nos mostra nenhuma inovação nas suas manobras e ainda sim me pareceu com velocidade abaixo da média. Jessé foi muito preciso e arriscou, mas tem a desvantagem de não ser "tão amado" pela turma do segundo andar...;
- Por que as moto aquáticas não estavam resgatando os nossos camaradas quando as pranchas quebravam ou leashes estouravam? Muita perda de tempo em um point break imenso;
- A equipe de proteção da vida marinha foi espetacular, cuidadosa e precavida, o oeste australiano tem que aprender com os irmãos sul africanos sobre como regular o line up e principalmente sobre quando invadi-lo ou não; 
- O round 3 foi especial para sabermos que a etapa seria definida entre Toledo e Gabriel, mas houveram 2 baterias do Julian no round 3 e 4 que entrei em desespero, ele não surfa como candidato ao título e muito menos como top 5. Fica escancarado a ajuda do segundo andar para ele, me sinto como se não entendesse nada de surf e somente a turminha de cima sabe o que faz ou o que diz...mas estão errados e não assumem o erros. As vezes parece uma luta de boxe, onde tu pode apostar as fichas no campeão que mesmo apanhando durante os 10 rounds, se não cair, vai ganhar....Viva a bolsa de apostas!! Ídem a nota do Japonês que, sinceramente, não chegou nem perto das notas dos meus 2 heróis. Alguém viu o tubo do Jordy contra o Thomas? Manobra enaltecida como se fosse algo maravilhoso, mas ficou um tempo somente na "porta"...Por que tiraram o comparativo ao vivo das ondas? Não querem mostrar as dificuldades em julgar, até o futebol avançou neste quesito, e quando falo Futebol, falo de um esporte 1000 vezes maior que o surf em termos de retorno $$$$;
- Ídalo e Bourez não podem se dar ao luxo de fraquejar nos primeiros rounds se almejam o caneco no final do ano;
- Kolohe e Ace estão surfando muito, Kolohe esta querendo algo a mais, parece que reascendeu uma chama do tempo do QS. Coffin de quem era esperado um surfe de borda e arcos longos, seguiu o caminho burocrático e abdicou de ambos, deixando a desejar nas suas apresentações;
- As táticas de bateria aliadas às escolhas de equipamento, vide pranchas e quilhas, foi de extrema importância. Houve momentos do mar em que a onda pedia pranchas que fossem mais verticais e outras vezes velocidade na paralela ou o famoso "down the line". Os atletas ficavam esperando pelas ondas certas ou abdicavam, pois sabiam exatamente o que as pranchas executariam, ficou fácil de ver os erros nas escolhas das manobras pela maioria dos atletas: os mais inteligentes atravessavam estas correções com velocidade, pois sabem gerar velocidade e retomar a mesma em transições de borda e fundo como somente eles, são mais equilibrados ou fluidos. Nesta hora o casamento arranjado que tenho visto de surfista x shaper tem sido de suma importância. A confiança entre criador e atleta eleva o nível de performance, sem que o atleta tenha medo de arriscar. O exemplo a ser analisado é do Parko, o mesmo optou por uma quilha com mais torção e flexibilidade, significa que ele entrava nas curvas de início de manobra com muito mais verticalidade e explosão, fazia o controle na transição e retomava a velocidade. Podem reparar que sempre no terço final da manobra a rabeta da prancha reagia de outra forma como não é costume nas suas performances;
- Tem 2 camaradas que vou parar de acompanhar nas etapas, Alejo (QS) e Michel Rodrigues. É muita sofrência, o coração perde o compasso, amo estes camaradas, mas a dor de torcedor é muito grande, vou dar um tempo!!!
- Alguém abriu os cofres para o Wade? Ele não precisa provar nada, porém ficaria mais feliz com um pouco de dimdim na conta.
     
            Chegamos a metade do ano competitivo, difícil de prever o que acontecerá, mas o segundo semestre sempre foi generoso para os brasileiros. Julian e Jordy não tem competitividade para serem líderes do circuito, GM pronto para o Bi e Toledo pronto para o primeiro, somente algo fora da curva para tirar o título de um dos 2 melhores surfistas do Planeta.

quarta-feira, 13 de junho de 2018

WSL - Uluwatu

A imagem pode conter: 2 pessoas, pessoas sorrindo, oceano, nadando, céu, água, atividades ao ar livre e natureza

WSL - FCS2 (Por Renato Ferreira Sachs)

Estamos passando por um momento histórico no Surf Profissional Brasileiro. A analogia que me passa pela cabeça é com o futebol, esporte criado pelos ingleses que após 50 anos de sua apresentação no Brasil chegou ao primeiro título mundial, jogamos e aprendemos, assim nos tornamos a maior potência do esporte, entre altos e baixos continuamos na liderança incondicional, somos a pátria de chuteiras....

O Surf como o futebol, não foi criação nossa, mas estamos chegando num ponto em que as vitórias se tornarão constantes e consagradoras. Estamos na liderança do Surf, não podemos mais nos achar incapazes ou prejudicados por complôs, estamos prontos para ganharmos e liderarmos. Nossos atletas estão ganhando com estilo, graça e força. Foram anos aprendendo, querendo e sofrendo para esta geração conquistar o ápice. Geração liderada pelo Mineiro, que mesmo sem o dom de Medina e Toledo, moldou o seu surf para ser campeão. Agora que aprendemos, estamos sendo copiados, não adianta fazer gol, tem que ser bonito.

Sr. Willian deve ser o mais brasileiro dos brasileiros no tour, corpo fortificado aliado à mente, foram 12 anos trabalhando para chegar no topo, chegou empurrado por uma palavra chamada "Desejo", trabalhou nas piores condições possíveis do WQS para fincar a bandeira no monte mais alto de Uluwatu (junto com Pipeline, Tahiti é uma das 3 principais ondas do Tour 18). Monte este que é abrigo e recebe os brasileiros há algumas décadas, segunda casa dos australianos. Não esquecendo do povo balinês que sempre nos recebeu com sorriso, ou seja, para nós o legítimo espírito do "ALOHA". Se nós éramos criticados por não surfar ondas grandes ou perfeitas este capítulo passou, faz parte da nossa rica história surfística. Podemos mais do que nunca sempre almejar o espaço mais alto do altar sem nos acharmos prepotentes ou arrogantes. Após as 2 etapas no arquipélago, Sr. Willian voltou com R$ 600.000,00 no bolso e ainda tem espaço para mais...

Antes da final me perguntei: quem vai levantar o Panda nos ombros e subir os 100 degraus, afinal o guri é pesado e se o surfe de frontside esta fora de moda?

Ítalo sofreu da mesma ressaca pós Bells quando competiu no Brasil.

Quartas de final, tivemos uma bela disputa entre Julian e Jordy, muito parelha assim como Medina e o Mickey. Entre Toledo e Sr. Willian revendo e revendo a bateria ainda acho que o Toledo teria uma bela margem de vantagem e saiu vencedor da bateria. Para o Sr. Willian seria a lei da compensação pelo ocorrido em Keramas? Kolohe lembrando Toledo, surf elétrico, vertical e mantendo o equilíbrio.

Semis e finais, quase colocaram o Panda em extinção, nesta nova escala de notas os erros ficam mascarados, pois as mesmas ficam muito próximas. O atual líder do tour Julian esta surfando metade do seu potencial, esta chato e previsível, o Tour hoje tem o surfista menos empolgante e forte como líder, esta sendo julgado pelo que poderia fazer e não pela realidade que tem apresentado.

Não posso deixar de parabenizar o Snapy (acredito que seja o primeiro Shaper Catarinense a ganhar uma etapa do WCT) pelo trabalho de longos anos que, associado ao seu atleta e às quilhas do MF large, chegaram numa prancha mágica que depois de 100 porradas no lip se manteve intacta. Ela deve estar torta e só deve funcionar em esquerdas, faz outra igual, mas que funcione só para direita!!!!

No placar dos sonhos para 2018 faltam as vitórias de: Jessé, Tomas, Ian, Michel, Alejo.....

domingo, 3 de junho de 2018

WSL - Keramas

A imagem pode conter: 3 pessoas, pessoas sorrindo, pessoas em pé
Mais um pódio verde e amarelo pra conta de 2018

WSL - Bully´s (Por Renato Ferreira Sachs)

Ídalo....Ídalo....porque começaste o evento que traria o Surf de volta para um dos melhores arquipélagos do Planeta com o pé esquerdo? Tu já sabia que iria terminar da mesma maneira? A troca de direção não seria somente no trânsito local, mas também na perfórmance (a última onda surfada por ele como regular é melhor do que qualquer onda surfada por mim).
Estamos celebrando o retorno da Indonésia com uma festa espetacular. Mesmo do lado "errado" da ilha (temporada ideal para Keramas é no segundo semestre), as doses homeopáticas diárias no horário nobre da tv me fez delirar com os meus heróis nas melhores condições possíveis, começando com tubos e acabando no ar.
Começando o show, 2JJF teve um wake up call, nos chamou a atenção com a sua brabeza, com as condições no momento de 5 a 6 pés, período alto a estratégia se tratando de um lugar maravilhoso é a básica: espera a bomba que ela virá, mesmo sem a prioridade tu tem a oportunidade de fazer a nota.
Mas a natureza começou a dar sinais que a festa seria diferente, a gigante Surfline começou a se preocupar, porque ao contrário, o site concorrente Magicseaweed mostrava a realidade nas suas previsões. Gabriel ganhou a bateria com um total de 5.60 e acabamos tendo o pior round 1 do ano até agora. Os somatórios foram desesperadores.

Jordy surfava como se estivesse em Trestles, Joan Duru com a sina de ter o quarto melhor somatório, mas não suficiente para passar de fase, e as condições se deteriorando, estamos na Indonésia, a janela de espera é grande, para tudo e recomeça nos próximos dias....
Pausa obrigatória: FIJI estava GIGANTESCO e PERFEITO, Kelly Mal Educado Slater, já estava havia 2 dias na ilha do amor esperando o swell mágico, claro que avisou os seus lacaios em cima da hora para chamarem um alternate....todo o planeta sabia que Cloudbreak estaria maravilhoso entre os dias 25/05 até 20/06, era só olhar os campeonatos anteriores, é a janela mais fácil do calendário, podem marcar as passagens para 2019 que estará lindo de se ver.
Round 2 na água com Toledo e Ídalo nos dando dor de barriga, Kolohe deixando passar a onda salvadora e vendo o Mickey se divertir, os tubos começaram a sumir, Ian me pareceu com uma prancha um pouco longa de mais para as manobras que o mar pedia, coisa que o Wilko soube analisar e executar umas 10 vezes por onda no sentido 12 hrs. Jesse estava mostrando as suas garras, Ezekiel, cruz credo, o que ele fez com a coitada da direita, o havaiano peso médio abriu a onda em 2 partes. Rodrigues x Yago 10 ondas contra 7 surfadas no total, contagem absurda de ondas, briga aberta, alta performance e fome estavam de mãos dadas, Yago se tivesse forçado um pouco mais o pé de trás teria notas melhores....Thomas sendo Thomas, veloz, preciso e bordas alinhadas, um dos poucos a saber a utilidade das quilhas de fibra de vidro, controle e força trazendo equilíbrio para o seu corpo.
Round 3, Jesse foi para as alturas e desferiu um 9 contra o 2JJF, o mais assustador não foi o momento da manobra, mas a linguagem corporal do Paulista achando que não tinha ganhado a nota, coisas obscuras no mundo do julgamento. Eu amo Bourez, o Willian sem a prioridade achou uma onda intermediária e usou tanta força que mandou a mesma de volta ao lugar de origem. Owen ganhando 5.17 por um "não tubo", vai entender...A falta de vontade do pessoal do segundo andar em soltar as notas com os camaradas de pior ranking é algo digno de estudo. Mickey e Colapinto estragando a festa de alguns. Gabriel brutal, muita, muita força e flexibilidade, as pranchas dele são uma extenção natural dos seus desejos. Mineiro x Parko, o 7.73 do brasileiro foi de uma violência sem precedentes, já o 7.53 do australiano, muito bem surfada, 5 manobras, mas parecia que eu tinha voltado aos anos 80. Pior ainda se compararmos o 7.77 para o Tubo e 2 rasgadas absurdas do Flores, então vem o Jordy, coloca os pés na prancha, tubo + rasgada + estilo e ganha um 9.43, tudo desproporcional no segundo andar.
Round 4 o mar continuava dos sonhos, quando os 2 melhores brasileiros do evento, Ídalo (80 % da sua forma) e Toledo (70 % da sua forma) surfariam juntos, mas graças a Deus os 2 teriam chances de passar para o próximo round. Nesta bateria achei que o Mineiro precisaria achar uma maneira de jogar mais água para o céu, assim chamaria mais a atenção. Kelly Mal Educado Slater não estava fazendo falta!!! Bourez quebra a sua prancha mágica (melhor prancha que teve na vida, segundo as suas palavras), suas atitudes davam a entender que tinha perdido um parente próximo, fiquei me perguntando: as Firewire não são construídas em uma linha de produção onde todas são idênticas? Pelo jeito não...O tempo foi passando e garfearam o maior mamífero do tour, tudo conspirando para o wild card permanente e novato do Clã Wright, logo em seguida, como se não bastasse anabolizaram a primeira onda a favor do Jordy contra o Toledo, que claro se desmotivou.
Ídalo é o aluno que todo mestre gostaria de ter: disciplinado, carismático e um dom fora do normal, o Pinga deve falar: bate 5 vezes na onda de um jeito que as pernas irão pegar fogo, quando der sai voando, mas não baixa de 2 metros de altura, repete em todas as ondas, escutou? Como se não bastasse ele faz tudo que o técnico pediu e acrescenta o modo perfeição, é de uma delicadeza e força no seu surf que ninguém consegue entender. Já que a Billabong apostou no guri, aproveita e abre o cofres, investindo no seu Shaper, o T. Patterson, fabricante da velha guarda de San Clemente, a água da região é muito boa, só tem peso pesado quando o assunto é prancha boa.
Quanto ao troféu precisaríamos de um texto a parte, só posso dizer que roubaria, mataria, esconderia a parafina do concorrente para ter a oportunidade de ter um trófeu destes. Empata com o antigo chapéu de Samurai do Pipe Master.
Vamos celebrar a Indonésia, nós surfistas sonhamos e sabemos que temos 2 templos sagrados: Hawaii e Indonésia, o Tour ficaria lindo, divertido e progressivo com mais etapas por lá, poderiam fazer que nem o BWWT, quando tiver ondulação chama todo mundo, ninguém vai deixar de aparecer no line up.
Pergunta que não quer calar: Quem pagou a conta da Etapa de Uluwatu? continuação da etapa de Margaret River, foi dinheiro do Governo Australiano? Pois as garantias para realização do evento sempre são pagas com meses de antecedência e este evento foi anunciado faz 2 meses...

domingo, 27 de maio de 2018

WSL - Saquarema

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Voa Toledo!

WSL - FCS2 (Por Renato Ferreira Sachs)
Nós amamos Saquarema. Tudo conspirou a favor quando a Mãe Natureza soube que o Rei de Pipe, Gerry Lopez, estaria no Brasil, mas precisamente na semana do CT.
Estávamos passando por um outono normal com poucos ventos do quadrante sul até o Rei colocar os pés no Brasil e as previsões começaram a mudar de figura, ganharam força e pressão para num futuro próximo se transformar no que viria a ser: O melhor CT da história no país. No canto direito da praia de Itaúna, uma direita que já existia, poderosa e limpa, mas com o ajuste do homem ganhou qualidade. Aliada a ondulação que estava chegando, nos apresentou mais uma onda de nível internacional e pasmem na mesma praia. O canto esquerdo já é digno de sonhos, o direito mais perto dos pesadelos para nós meros mortais. No Brasil já seria uma raridade termos este tipo de onda, imaginem 2 ondas poderosas na mesma praia!!! Teríamos o trabalho facilitado dos canais de previsão de onda em conjunto com a direção de prova, pois teríamos sobra de ondulação, só precisando ajustar aos horários dos ventos.
O evento começou com o power do Toledo (usando rabeta swallow em sua prancha), Pupo surfando com inteligência derrubando Smith, o mar começou a ganhar tamanho e força, ficando nervoso, as emoções começaram a aparecer, as variações de leitura de onda em condições poderosas trazem muito mais emoções do que 20 manobras iguais em uma onda perfeita. O 2JJF esta me preocupando, queremos ver show e o surf esta lá, mas escondido, não poderia usar a desculpa da onda ser ruim, pois praticamente estava em casa, a única mudança seria a troca da cerveja por caipirinha. Gabriel surfando com muita fluidez e velocidade, a contagem de onda em beach break foi absurda. Adriano estava muito fluido e com a força habitual, estava com saudade de assistir o camarada. Colapinto tem uma precisão de assustar. Alejo e Panda trouxeram toda a experiência para o line up, sabem jogar o jogo e muito bem. No quesito nota 10, Ian Carrol Gouvea pegou um dos melhores tubos do evento e finalizou a onda de uma maneira extremamente violenta, uma batida em 2m de junção que poucos sobreviveriam aquela força.
O Oceano apresentava as mudanças de humor corriqueiras, foi muito bom ver e aprender com as estratégias, a paciência se transforma numa palavra extremamente importante, pois ela deve ser usada no tempo certo, os atletas não escondiam o jogo, que era limpo, claro e objetivo. Os tubos estavam presentes. A inteligência usada nas escolhas das manobras para o encaixe certo foi de um grau impressionante, muitas vezes as manobras foram conservadoras, mas precisas. Um exemplo foi a bateria do Sebastião x Duru, acredito que tenha sido uma das melhores do ano e resume bem o pensamento acima. Os rounds foram passando e não posso deixar de falar sobre o melhor aéreo já executado na história do Surf. Toledo se projetou de uma maneira assombrosa e perigosa, sobre um vôo extremamente longo, acho que ficou mais tempo no ar do que nos tubos. Difícil alguém no planeta superar o feito do camarada que mais que ninguém deixou claro naquele momento que é: O melhor surfista do planeta e esta pronto para o título mundial. O progresso esta chegando pela sua cabeça e pés. Todas as vezes que ele sobe na prancha não sabemos o que vem pela frente, cabe a nós espectadores controlar o coração, sentirmos a adrenalina correr pelo corpo e trancarmos o ar, pois a porrada é grande, seja no ar ou na água. Ele ganha os eventos que quiser, claro que tem sempre um outro camarada querendo o título também, desta vez foi Wade, o rookie peso pesado, escola power australiana que tentou, chegou com as melhores credenciais possíveis a final, muito surf, pouco dinheiro e pouca bagagem/badalação, mas suficientes para causar o estrago que causou durante o evento. Mas num tubo nota 10 Toledo fechou a conta e foi para casa com a vice liderança do circuito.
As pranchas Sharpeye do Toledo estão cada vez mais se transformando numa extensão do seu corpo físico e mental, pode quebrar quantas forem que os backup´s são tão bons quanto as anteriores. A ligação shaper x surfista esta muito nítida. 
2 comentários breves:
- Começarei a assistir a transmissão em português, pois Neco Padaratz participará das mesmas;
- Até o (site) gigante Surfline sucumbiu a Saquarema falando que a mesma era melhor que a piscina, quem não sabia?

quarta-feira, 9 de maio de 2018

Surf Sintético


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WSL/Cloro - FCS2 (Por Renato Ferreira Sachs)
O Surf é imprevisível e não podemos controlar o ambiente natural que cercam as ondas. Podemos sim nos adaptar, nós temos pelo menos 3 sites de previsão de Surf que nos ajudam e muito aumentando o nosso grau de acerto para os melhores dias. Nestes casos viajamos algumas horas, esperamos o dia certo, dor de barriga na noite anterior que precede um dia de boa ondas, acordar cedo, chimarrão no ponto e festa. Todo este ritual na minha praia amada ocorre poucos dias durante uma semana, então o gosto pelo momento se torna maior. Toda esta vivência não tem como ser mensurada. simplesmente não tem, desculpem aos outros esportes, mas somos arrogantes e prepotentes por natureza.
                    
Não coloquem a piscina como uma opção de "Surf", o Surf é feito e praticado no mar, com interferência da mandatária maior, a Natureza. Temperatura do ar, direção dos ventos e ondulação, localização das tempestades, são apenas alguns dos elementos que nos movem como uma tribo.
Fiquei me perguntado durante os 2 dias do evento o que seria mais divertido: colocar todos atletas num avião partindo para Fiji, México, Chile ou Africa para assistirmos pela internet, (sim internet, somos percursores neste assunto) os camaradas surfarem de verdade ou nos submetermos ao controle de tempo e horário impostos pela TV Aberta, para nos transformarem no que nós não somos.

Podemos ficar discutindo durante anos o que esta por vir no quesito: Surf Sintético. Algumas sugestões de pautas:
- Qual será a sua influência nos próximos anos? Olimpíadas: nunca precisamos dela para existirmos ou vivermos. A não ser que tu queira controlar o ambiente e ganhar dinheiro. Olimpíadas de inverno existem para os esportes de inverno. O Surf também tem a sua melhor estação no calendário. No caso do Japão como país sede em 2020 e os próximos jogos, qual será a escolha: O Japão que tem centenas de ondas boas ou Piscina? Hossegor ou Piscina? Trestles e Pipe ou Piscina? Esta discussão não esta na nossa alçada, só podemos discutir nas rodas de chimarrão. O meu pensamento e objetivo seriam levar a experiência do surf para lugares sem onda, assim, propagaremos o nosso estilo de vida.

- Campeonatos válidos pelo circuito serão tão divertidos assim? No formato deste evento, sinceramente, achei muito monótono se nos basearmos pelo primeiro round. A pior parte foi o intervalo entre as ondas que a WSL não soube nos entreter, foram muito fracos e repetitivos. Se superaram, pois tinham as principais figuras da industria e não souberam vender o peixe...

- Julgamento? poderiam ter sido mais audaciosos já que era um evento teste e colocado 5 ex surfistas profissionais num painel paralelo, perderam a chance de aprender de como um surfista profissional analisaria, principalmente as ondas do General Gabriel de como se entuba de backside em mini tubos, poderiam ter dado nota 12 pelas últimas ondas. Mas não, prefiram o Jordy e Kanoa alisando toda a extensão da onda ( cerca de 700 metros) para um aéreo medíocre no final. Coisa que o Toledo fazia no início da onda. Fora a última onda do Kelly que foi a melhor que eu vi dele nos últimos anos em competição e os caras não abriram a nota. O 2JJF apareceu???

- Teremos mudança nas manobras? Não vi nada de novo, ao contrário, repetiram mil vezes as rasgadinhas de fundo de prancha numa onda sem força na base. O Bourez na sua primeira onda para esquerda foi o primeiro a bater reto. O Mineiro não soube surfar para a direita. Alguém surfou de base trocada?

- Pranchas e equipamentos: As partes mais importantes do evento, tão valiosos e pouco relacionadas as performances amadoras que vimos neste primeiro evento. Observei que poucos atletas foram audaciosos e saíram da zona de conforto buscando algo a mais, alguns escolhiam pranchas diferentes para cada tipo de onda, posições de quilhas alternadas, mas em si poucas alterações, inclusive na primeira onda do domingo nós vimos o Tom Curren cair da prancha do Kelly, eu acho que nunca tinha visto o Curren cair de alguma prancha, mas era da marca do Kelly, era melhor ele ter surfado de sonrrizal.....
               
Quanto a Copa que nós vimos, reparamos que todos os convidados se divertiram e beberam, e muito (como em qualquer evento), todos acharam pequenas variações nas ondas, na maioria das vezes a esquerda gorda era maior que a direita tubular. Porque um jetsky gastando gasolina se poderia ter um teleférico? Se me perguntarem: Este é o futuro do Surf competição? Responderei que neste formato acho impossível, não quero voltar aos anos 80.
Quero G-Land e Fiji!!!! Prefiro a imperfeição que é perfeita.

quarta-feira, 18 de abril de 2018

WCT - Margaret River

Postura séria quando o assunto é: SURF

WSL - FCS2 (Por Renato Ferreira Sachs)


Se compararmos o round 1 de Bell´s, que teve somatório dos vencedores das 12 baterias de 150,34 pontos, contra os 114,74 de Margaret River, chegamos a conclusão básica de que mais uma chamada/call foi errada. A desculpa de que ninguém perde no round 1 está se tornando um escudo para os erros de chamadas. Não posso crer que com tantas informações relacionadas a previsões, os camaradas fizeram o absurdo de dividir o primeiro round em 2 dias. Quando o oceano terá condições iguais de pressão e vento em 2 dias diferentes? Até os pensamentos e estratégias devem ser mudados. Nosso esporte não é igual ao tênis, que a quadra fica parada/estática e a rede não muda de lugar. 

Quanto ao round 1, o Ian teria passado 70% das baterias com a sua média. Quem trocaria o Gudauskas pelo Jack Robinson no circuito? Eu trocaria fácil ...mas como as arenas são diferentes/nível no WQS para o WCT, este guri vai penar para entrar na elite, pois ou ele desaprende a surfar, ou será um eterno freesurfer. O 7.33 do Gabriel foi menosprezado pelos juízes que deram a mesma nota pro Julian em outra bateria, numa onda de tubo que a prancha ficou aparecendo quase todo o tempo e teve uma pequena e rápida placa no final, inclusive nesta bateria, se o Jesse conseguisse finalizar as suas ondas, ele teria passad. Yago sumido!!! Alguém avisa ele que não precisa entubar se não tiver tubo, pode mudar a estratégia. 

Já no round 2, Ítalo x Pupo foi a bateria do evento em termos de disputa e diferenças de estilo, linhas curtas x linhas longas, lindo de ver ( eu amo o Bourez nestas condições!!!) Yago x Colapinto, não estamos acostumados a ver estes 2 com pranchas grandes, os 2 surfaram com paciência, manobras longas e sólidas. Rodrigues consegue fazer um estrago violento mesmo em ondas pequenas, o cara eleva o limite.


Acertado o primeiro cancelamento de prova em função da atividade dos moradores e locais do oceano, ou seja, os Tubarões, que estão no seu habitat natural, nós somos invasores ou convidados? Alguém sabia que esta é a época do ano que chamam a "Estação do Salmão", eu nem imaginava. O Jay Davies surfista profissional da região que tocou no assunto, eles (surfistas locais) deixaram claro que não entendem a data da janela do evento (falando em calendário/logística: porque o circuito que esta no Oceano Índico vem para o Brasil e depois volta para Bali?). 

Neste momento me lembrei da entrevista do MF falando que nunca mais voltaria para Margaret, então porque existe a etapa? $$ do Governo Australiano? Pode ser... Nesta hora o meu herói se mostrou gigante! Enquanto os outros capitães se mostraram sargentos, Medina foi ao ar, lançou um post questionando a segurança na área do evento, tanto na competição como nos treinos, foi de uma atitude digna de quem não tem medo da política, "Ídalo" se lançou em seguida, motivado pelas palavras do campeão. "Precisamos cuidar da vida dos atletas". Sábia decisão da WSL em cancelar o evento, ordem superior do Sr. Dirk Ziff. 

Se o Gabriel e o Ítalo forem punidos pelos seus chamados, o que deveria ter sido feito na década de 80 e 90, quando os atletas não competiam/boicotavam as etapas da Africa do Sul em virtude do Apartheid? O mundo surfístico está preocupado com a liderança esportiva e política dos brasileiros! Com as saídas do Slater e MF, a preocupação está grande. Agora, se os camaradas querem emoção, a Etapa mais violenta do tour, com roubo, assalto, bala perdida e exército na rua só está á um mês de acontecer.

terça-feira, 17 de abril de 2018

Apple Park (ou disco voador da Apple)


Aprecie um dos últimos sobrevoos (mesmo) feitos por um drone sobre o Apple Park

Depois de algum tempo, na verdade alguns anos, finalmente está pronta a nova sede da Apple. E como não poderia deixar de ser, é algo que beira o surreal. Do ponto de vista arquitetônico e do ponto de vista de quem não entende nada de arquitetura, mas aprecia as coisas bacanas. Dá uma olhada neste guia para entender um pouco melhor a coisa.

Obviamente tem o dedo de Steve Jobs ali. Os detalhes que envolvem esta obra seguem o mesmo estilo dos eletrônicos desenvolvidos pela Apple: é bonito por fora e muito mais bonito por dentro. As partes que não são vistas são tão bem projetadas quanto aquela que todo mundo pode ver.

quarta-feira, 11 de abril de 2018

WCT 2018 - Bell´s

Ítalo Ferreira matou dois coelhos: debutou no lugar mais alto do pódio 
e entrou para a história ao carimbar a aposentadoria de Mick Fanning.

WSL (Por Renato Ferreira Sachs)

Bully´s - Ítalo Supremo, os fundamentos do Surf são: Tubos e curvas, Bell´s é feita para ser surfada em curvas longas ou curtas, tanto na vertical quanto em ângulos mais abertos. Como não gostar deste tipo de surf em ondas de 4 - 7 pés? O SR. MF, camarada mais elegante e clássico do tour deixará saudades, mas deixou uma escola e legado de como atacar a onda sem diminuir o pé no acelerador, e ainda mostrando sabedoria na paciência de manobrar na hora certa. 

Quanto ao campeonato, revendo a primeira bateria do evento achei que o Filipe levou em cima no Colapinto, por pouco mas levou, Wright mostrou o caminho de como se surfar de backside, Jordy precisa parar de pedir nota, GM assim como Ítalo demostraram que o importante é descer a onda, nem que seja de jacaré em ondas de 8´ (eu teria morrido afogado e quebrado o pescoço) os caras conseguem imprimir velocidade sabe Deus como, mantendo o estilo e fluidez, estão acima da média. Thomas fez uma das melhores manobras do evento junto com a patada de backside do Ídalo numa junção de 2metros. Se comparem as ondas em bateria diferentes o Bourez teria um somatório muito maior que o do 2JF, ele que deve estar apavorado com a atitude do Ezekiel, falta de educação do sangue puro havaiano, mas não infringiu nenhuma lei. 

Round 2 o Filipe me deixou com dor de barriga, poderia ter surfado de base trocada que teria passado a bateria de uma maneira mais fácil. Mineiro precisa de prancha e quilhas com outros conceitos, tanto de torção como flexibilidade. No round 3 ainda algumas observações: Jesse precisa aprender com a sua namorada como surfar mais rápido e vertical. Bourez batendo e rasgando com força, se mostrava como a quinta força do evento, MF dando show. Irei criar uma nova regra: Ítalo e Toledo só podem se encontrar na semi ou final de qualquer competição. Fizeram a melhor bateria do evento! E assim nós fomos até a semi entre os 2 melhores surfistas do evento. A bateria foi surfada de forma limpa e bem julgada. Ítalo mereceu e GM vai com tudo para o Oeste Australiano. A final parecia final de novela, tu sabe o que irá acontecer, até os sagrados cliffs de Bell´s sabiam, mas não, os juízes trabalharam da melhor maneira possível e o melhor venceu. Badaladas do Sino, choro e grito foi que mais se escutou neste dia histórico para o Brasil. Ítalo é daqueles camaradas que todo mundo torce a favor, parabéns ao seu shaper e time.

Quanto a tal palavra "escala", ela me lembra a palavra "volume", muito usada e de pouca utilidade. Pottz deve pensar: nos anos 80 e início nos 90 as baterias se resumiam em 5 manobrinhas para ganhar as baterias ao invés de uma manobra forte, coisa que ele pregava. Agora os juízes estavam confundindo a nossa cabeça nas primeiras baterias, era uma confusão de notas! vamos apagar a inovação, power e risco para darmos abertura para um surf conservador? Espero ver o melhor do Surf em competições e não em filminhos ou clips resumidos de 5 minutos após 15 dias na Indonésia...Aviso aos navegantes que os corretores ortográficos Cristina e Felipe estavam ausentes na hora da escrita.

sexta-feira, 6 de abril de 2018

Sangue novo no Tracks

Renatinho rasgando uma esquerda no Backdoor de Tramandaí. 
Sim, ele está de touca, luvas, botas e longjohn. É surfista de verdade!

Continuando com a idéia de que vale a pena manter o Tracks no ar para a meia dúzia de insistentes leitores que ainda vem até aqui, pensei que seria uma boa idéia pedir ajuda para alguns amigos que tem jeito com a caneta. Ou, com o teclado.

Já há algum tempo que depois de cada etapa da WSL o Renato Sachs faz um texto com uma análise, lá no Facebook dele. Quando li o primeiro, confesso que fiquei muito surpreso com a (boa) qualidade da redação e gostei muito do que ele escreveu. Achei tão bom que cheguei a pensar que ele havia feito um descarado Ctrl C/Ctrl V de algum veículo. Mas não, trata-se de um talento desconhecido.

Mas se depender do Tracks, não mais. A partir de agora o ele vai passar a colaborar aqui.

Seja bem-vindo, Renatinho! E não esquece o ensinamento que recebi do mestre Júlio: "passarinho que come vidro sabe o c* que tem!". :))

quarta-feira, 21 de março de 2018

Professor Jader


Comecei a surfar no verão de 1975. Naquela época a gente aprendia a surfar em pranchas de isopor, na espuminha da beira. Era fácil. E só íamos encarar as ondas lá na primeira arrebentação, quando já tínhamos um bom controle do básico do surfe: remar e subir na prancha.

A remada para pegar a onda e o movimento de subir na prancha com a onda em movimento, talvez seja uma das coisas mais difíceis de se fazer. Não basta força e equilíbrio. São necessários movimentos coordenados, capacidade de explosão muscular e muita, mas muita sincronia de movimentos. E tudo isso sem pensar, só no instinto, pois você sabe né, uma onda jamais é igual à outra.

Ao longos dos 43 anos em que tenho praticado este esporte fantástico, já vi e vivi muita coisa. E ele também me proporcionou coisas e experiências que vão marcar a minha vida eternamente. Fiz amigos de uma vida, viajei pelo país e pelo mundo, venci competições, ganhei algum dinheiro como competidor e, finalmente, a coisa mais importante que o surfe me deu: me fez conhecer a mulher da minha vida, que me deu a segunda mulher da minha vida, a Valentina.

Mas diferente de um esporte convencional, o surfe se entranha na vida dos seus praticantes de tal maneira que vira um estilo de vida. Uma vez surfista, a pessoa muda. Passa a pertencer a um grupo distinto, que quando olha para o mar, vê muito mais do que quem não surfa.

Mas e o professor Jader pergunta o leitor. Já chego lá.

No segundo verão depois que minha filha aprendeu a caminhar, eu achei que era hora de proporcionar para ela a sensação de correr uma onda. Deitada na prancha mesmo, sem a pretensão de subir, pois ela ainda era muito pequena. Funcionava assim: ela deitava na prancha, ali a poucos metros da areia e eu empurrava ela naquela última ondinha da beira, com as quilhas quase arrastando na areia. Para garantir a segurança dela, eu acompanhava ao lado da prancha. Mesmo assim, um dia em descuidei e a prancha virou. Ela mergulhou, engoliu um pouco de água e traumatizou. Levou outros dois verões para ter coragem de entrar no mar novamente. O trauma passou. Mas a vontade de surfar nunca apareceu, pelo menos não com a intensidade que faria dela uma surfista.

Já, já chego no Jader.

O que eu poderia ter feito de diferente? A profundidade era segura para ela, a velocidade da prancha na onda era muito pequena e eu estava ao lado dela. O problema foi que ela mergulhou e não tentou levantar (a água batia na coxa dela). Se apavorou e engoliu água.

Cheguei no Jader!


O que faltou para mim naquele dia foi experiência de professor de surfe. Se em vez de mim, fosse o professor Jader, talvez a Valentina hoje fosse minha parceira nas ondas.

Acompanho suas aulas sempre que estou no mar pegando minhas ondas e inclusive naqueles dias em que o clima não está tão divertido, com chuva, vento e frio. O cara é um trabalhador. E sempre com uma energia e um sorriso que fazem qualquer um se empolgar. Sorte dos alunos dele. Sorte nossa, que não teremos que lidar no futuro com surfistas despreparados oferecendo risco para nós e também para eles próprios.

Além disso, a Escola de Surfe do Jader, chamada Escola de Surfe Primeira Onda, faz um trabalho de inclusão social exemplar: há pouco mais de dois anos, algumas crianças de um bairro pobre de Tramandaí, fazem aulas grátis duas vezes por semana. A única coisa que o professor Jader exige delas é estarem matriculadas e frequentando uma escola. Hoje o projeto atende 20 crianças com idade entre 8 e 15 anos. O objetivo do projeto, segundo o próprio Jader me contou, é "afastar estas crianças do ambiente hostil em que vivem e ensinar-lhes o valor do esporte e da escola". E não se engane, as crianças devem mostrar o boletim para o professor: nada de notas baixas ou faltas!

O Jader surfa muito bem e é muito experiente. Ele começou a dar aulas há muitos anos e está plenamente capacitado a ensinar novatos sobre aqueles movimentos complicados que descrevi ali em cima. Nenhum curso de Educação Física o teria preparado para isto. Nenhum professor de Educação Física que não seja um surfista experiente jamais estaria apto a dar as aulas de surfe que o Jader ministra. A não ser que ele aprenda a surfar com o professor Jader.

Agora me contaram que o CREF quer suspender o direito do Jader de dar aulas (pois ele não possui o registro). Só podem estar de brincadeira! Me corrijam se eu estiver errado, mas até onde sei, não há a especialização em surfe no curso de Educação Física. Daquelas coisas que ninguém consegue entender.

Perguntei para o Jader por que ele não fazia o curso para evitar criar caso e ele me contou que chegou a começar, mas o orçamento ficou apertado e ele teve que trancar a matricula. Então tenho uma sugestão para o pessoal do CREF, uma solução onde todos sairão ganhando - principalmente os alunos da Escola de Surfe Primeira Onda (incluindo aqueles 20 que fazem parte do projeto social): ofereçam uma bolsa para ele e se quiserem pedir algo em troca, quem sabe o Jader dá aulas de especialização em surfe fazendo disto, um curso de Pós para os profissionais que já possuem o CREF?

Acredito na boa intenção do CREF, mas também acredito naquilo que minhas mais de 4 décadas de surfe me fizeram ver: não existe nada mais importante para um surfista iniciante do que uma boa orientação, transmitida de surfista para surfista.

Fico desde já na torcida por um final feliz e que eu continue testemunhando o trabalho exemplar do professor Jader junto à plataforma de Tramandaí.