segunda-feira, 4 de abril de 2005
Surf x Pesca (em 1985)
Segue a matéria na íntegra, com seu texto original:
Surfistas continuam ignorando pescadores
A briga entre pescadores e surfistas da plataforma de Tramandaí tende a cair no vazio. Primeiro porque se prolonga há muitos anos, depois, porque os surfistas não estão nem aí com a grita dos pescadores. Continuam praticando seu esporte no local onde as ondas quebram com mais força.
Ontem, a turma de surfistas era grande. Todos riam da pretenção dos pescadores em delimitar uma área de cem metros em torno da plataforma somente para eles, apesar de reconhecerem o perigo que representa surfar junto às linhas e anzóis. Na verdade, afirmavam, dificilmente haverá uma interdição, até porque já existe uma determinação da Capitania dos Portos, proibindo a prática do surf até 200 metros da plataforma. Mas ninguém olha para a velha placa.
"Entendemos a preocupação dos pescadores, mas esta intenção deles é só para dar trabalho para a polícia. A gente pode entrar aqui e sair 100 metros adiante", diz Giovanni Mancuso, 21 anos, residente em Porto Alegre, há muitos anos surfista reconhecido. "podem proibir que não vai adiantar nada". A opinião de todos era uma só: nada de atritos, e sim espaços para todos no mar. "Dá para conviver perfeitamente, é só querer. O mar não tem dono..."
Surfistas diplomados
(Revista Veja | Agosto | 2001)
A comunidade dos praticantes do surfe tem executivos, cientistas, médicos e outros profissionais bem-sucedidos. Veja alguns exemplos:
Craig Venter
O geneticista californiano de 58 anos é presidente do laboratório Celera Genomics, a empresa que decifrou o código genético humano. Além de ser famoso pelo projeto Genoma, o ex-surfista é conhecido por sua personalidade agressiva.
Kary Mullis
O vencedor do Prêmio Nobel de Química em 1993 continua perto das ondas. Mesmo aos 58 anos, Kary surfa com freqüência. Ele foi premiado por desenvolver o método PCR, que é capaz de multiplicar infinitas amostras de DNA. É um cientista polêmico: garante que a camada de ozônio não está diminuindo e que o HIV não provoca a Aids.
Marcelo Lacerda
Um dos pioneiros da internet no Brasil, Lacerda idealizou o portal Zaz (comprado pelo Terra). Aos 43 anos, enfrenta uma rotina pesada como presidente do Terra Networks, mas não deixa de surfar quase todos os fins de semana no litoral paulista.
A comunidade dos praticantes do surfe tem executivos, cientistas, médicos e outros profissionais bem-sucedidos. Veja alguns exemplos:
Craig Venter
O geneticista californiano de 58 anos é presidente do laboratório Celera Genomics, a empresa que decifrou o código genético humano. Além de ser famoso pelo projeto Genoma, o ex-surfista é conhecido por sua personalidade agressiva.
Kary Mullis
O vencedor do Prêmio Nobel de Química em 1993 continua perto das ondas. Mesmo aos 58 anos, Kary surfa com freqüência. Ele foi premiado por desenvolver o método PCR, que é capaz de multiplicar infinitas amostras de DNA. É um cientista polêmico: garante que a camada de ozônio não está diminuindo e que o HIV não provoca a Aids.
Marcelo Lacerda
Um dos pioneiros da internet no Brasil, Lacerda idealizou o portal Zaz (comprado pelo Terra). Aos 43 anos, enfrenta uma rotina pesada como presidente do Terra Networks, mas não deixa de surfar quase todos os fins de semana no litoral paulista.
Novo critério de julgamento
Versão 2005 - ASP
O novo critério já está valendo para todos os eventos de 2005.
As mudanças são o resultado de um processo de "maturação" de um ano, supervisionado pelo Head Judge da ASP, Perry Hatchett. Ele reflete as performances de ponta e captura o espírito do freesurf, que é a essência do esporte.
Usando como laboratório as expression sessions e o evento experimental organizado por Kelly Slater em Fiji, Perry e os demais membros da equipe tácnica da ASP, incluindo os próprios surfistas, deram uma flexibilizada no critério, beneficiando o surf progressivo e introduzindo um sistema de bonificação baseado na demonstração de variedade no repertório de manobras e na técnica de emendar uma manobra na outra, na parte crítica da onda, com fluidez, estilo e velocidade.
"O surfista deve executar, com controle, manobras radicais, na parte mais crítica da onda, com velocidade, força e fluidez para buscar a pontuação máxima. A criatividade e o surf progressivo bem como variedade de repertório (manobras), serão levados em consideração no momento da pontuação das ondas contadas.
O surfista que utilizar este critério com o maior grau de dificuldade e determinação nas ondas deverá receber as maiores notas."
Para quem quiser ler a versão original - sem a minha "tosca" tradução, vá até o site da ASP -> Media Guide -> Judging Criteria.
Boas ondas.
O novo critério já está valendo para todos os eventos de 2005.
As mudanças são o resultado de um processo de "maturação" de um ano, supervisionado pelo Head Judge da ASP, Perry Hatchett. Ele reflete as performances de ponta e captura o espírito do freesurf, que é a essência do esporte.
Usando como laboratório as expression sessions e o evento experimental organizado por Kelly Slater em Fiji, Perry e os demais membros da equipe tácnica da ASP, incluindo os próprios surfistas, deram uma flexibilizada no critério, beneficiando o surf progressivo e introduzindo um sistema de bonificação baseado na demonstração de variedade no repertório de manobras e na técnica de emendar uma manobra na outra, na parte crítica da onda, com fluidez, estilo e velocidade.
"O surfista deve executar, com controle, manobras radicais, na parte mais crítica da onda, com velocidade, força e fluidez para buscar a pontuação máxima. A criatividade e o surf progressivo bem como variedade de repertório (manobras), serão levados em consideração no momento da pontuação das ondas contadas.
O surfista que utilizar este critério com o maior grau de dificuldade e determinação nas ondas deverá receber as maiores notas."
Para quem quiser ler a versão original - sem a minha "tosca" tradução, vá até o site da ASP -> Media Guide -> Judging Criteria.
Boas ondas.
segunda-feira, 10 de janeiro de 2005
Meu primeiro surfe na plataforma
(Site Ondas do Sul)
Cracas! Muitas! E muito afiadas! Os pilares me pareceram muito mais perigosos, assim, tão de perto. Além disso, achei muito estranha a correnteza que se forma perto deles. Na verdade eu estava tão assustado que não conseguia ficar perto, portanto acabava tomando as ondas na cabeça em vez de aproveitar o canal.
Mas era apenas o meu primeiro surfe na plataforma. Naquela época, para se chegar até o pier, era necessário descer de carro mais ou menos na altura do condomínio Quebra-mar. Dali até o pico, era só areia e cômoros.
Eram outros tempos. Minha família mudava-se para Imbé em dezembro e só voltavamos para a cidade em março. Costumava surfar só em Imbé. Na verdade, o meu mundo não ia além da barra. Nem imaginava que poderiam quebrar ondas tão diferentes, tão perto dali.
Eu fazia parte de uma nova geração de surfistas que estava surgindo. Cabia aos mais velhos nos mostrar os segredos do esporte. Para nós, um bando de pirralhos, poder vadiar a tarde inteira com esta turma era o auge. Isto acontecia na oficina de consertos de pranchas que ficava nos fundos da casa do Ticaio. Prestávamos atenção a cada detalhe do que faziam. Eu ficava maravilhado com a perícia que tinham em lidar com aquelas "gosmas" que, segundo eles, depois endurecia e servia de "casca" para as pranchas.
Estes eram os caras que nos inspiravam. Eles caiam nos dias grandes, de ressaca, enquanto nós subíamos nos cômoros para acompanhar de lá, os drops que, para nós, pareciam gigantescos.
Numa destas tardes, o Marco "Bicudo" Martins, junto com seu irmão George e o Gustavo "Guga" Adams, me convidaram para ir surfar na plataforma. Para mim, o que contava era a oportunidade de dar uma caída com os caras. Nem pensei onde estava indo surfar. Era algo totalmente novo para mim: colocar minha prancha na capota do Doginho do Bicudo e embarcar no meu primeiro "surfari". Eu não estava cabendo dentro de mim.
Quando chegamos ao pico, eu nem olhei para o mar. Isto não era o mais importante. Eu só tinha olhos e ouvidos para o que estava acontecendo naquele carro. O som que tocava. Os papos dos caras. Eu já estava me sentindo "o surfista"!!
Lembro como se fosse hoje, do Bicudo me dando as dicas no canal: "rema perto os pilares Giovanni, pois ali há um canal e não quebram ondas..." mas como já disse, eu estava muito apavorado para aproveitar o canal...
Na verdade não lembro como estavam as ondas. Se não me engano estava fazendo um típico final de tarde de verão: ventinho nordeste, água quente e meio metrão de onda. É claro que não tinha nenhum outro surfista dentro dágua - naquele tempo contava-se nos dedos o número de praticantes nas redondezas - a maior parte deles de Novo Hamburgo e Porto Alegre.
Depois deste dia, minhas caronas para o pier tornaram-se mais frequentes (provavelmente meus tutores não notaram meu pavor e me acharam boa companhia). Aos poucos fui perdendo o medo dos pilares e acabei virando um viciado no surfe "do outro lado do rio". E à medida em que comecei a surfar com mais frequencia no pier, comecei a fazer novas amizades e a formar uma nova turma. E o melhor: esta turma se encontra até hoje - às vezes dentro dágua e às vezes fora, em churrascos que estão se tornando tradição, no escritório do Fernando Ferrari, em Porto Alegre.
Na verdade, desde aquele primeiro banho no pier, minha vida nunca mais foi a mesma. Foi como se eu estivesse "pulando de fase" naquele dia. Encerrando minha fase iniciante e transformando-me num verdadeiro surfista.
Foi ali que aprimorei meu surfe e também foi ali que acabei conhecendo minha esposa. Meus melhores amigos são frequentadores do pico e minhas mais doces lembranças, ligadas à praia, passam por perto daquela plataforma.
Viajei para alguns paraísos de surfe e ainda assim morri de saudades das ondas do pier. Já fiz mais propaganda do local do que a própria Prefeitura. Já representei o pico em competições. Acompanhei várias gerações de surfistas surgirem. Já briguei, bati boca e me diverti muito surfando no local.
30 longos anos se passaram e ainda me lembro daquele primeiro banho com o Bicudo. Penso que se não tivesse sido aquela carona, minha vida poderia ter tomado um rumo totalmente diferente.
Obrigado Bicudo, te devo esta. Obrigado Tramandaí, minha vida ainda acontece aí.
Boas ondas.
Cracas! Muitas! E muito afiadas! Os pilares me pareceram muito mais perigosos, assim, tão de perto. Além disso, achei muito estranha a correnteza que se forma perto deles. Na verdade eu estava tão assustado que não conseguia ficar perto, portanto acabava tomando as ondas na cabeça em vez de aproveitar o canal.
Mas era apenas o meu primeiro surfe na plataforma. Naquela época, para se chegar até o pier, era necessário descer de carro mais ou menos na altura do condomínio Quebra-mar. Dali até o pico, era só areia e cômoros.
Eram outros tempos. Minha família mudava-se para Imbé em dezembro e só voltavamos para a cidade em março. Costumava surfar só em Imbé. Na verdade, o meu mundo não ia além da barra. Nem imaginava que poderiam quebrar ondas tão diferentes, tão perto dali.
Eu fazia parte de uma nova geração de surfistas que estava surgindo. Cabia aos mais velhos nos mostrar os segredos do esporte. Para nós, um bando de pirralhos, poder vadiar a tarde inteira com esta turma era o auge. Isto acontecia na oficina de consertos de pranchas que ficava nos fundos da casa do Ticaio. Prestávamos atenção a cada detalhe do que faziam. Eu ficava maravilhado com a perícia que tinham em lidar com aquelas "gosmas" que, segundo eles, depois endurecia e servia de "casca" para as pranchas.
Estes eram os caras que nos inspiravam. Eles caiam nos dias grandes, de ressaca, enquanto nós subíamos nos cômoros para acompanhar de lá, os drops que, para nós, pareciam gigantescos.
Numa destas tardes, o Marco "Bicudo" Martins, junto com seu irmão George e o Gustavo "Guga" Adams, me convidaram para ir surfar na plataforma. Para mim, o que contava era a oportunidade de dar uma caída com os caras. Nem pensei onde estava indo surfar. Era algo totalmente novo para mim: colocar minha prancha na capota do Doginho do Bicudo e embarcar no meu primeiro "surfari". Eu não estava cabendo dentro de mim.
Quando chegamos ao pico, eu nem olhei para o mar. Isto não era o mais importante. Eu só tinha olhos e ouvidos para o que estava acontecendo naquele carro. O som que tocava. Os papos dos caras. Eu já estava me sentindo "o surfista"!!
Lembro como se fosse hoje, do Bicudo me dando as dicas no canal: "rema perto os pilares Giovanni, pois ali há um canal e não quebram ondas..." mas como já disse, eu estava muito apavorado para aproveitar o canal...
Na verdade não lembro como estavam as ondas. Se não me engano estava fazendo um típico final de tarde de verão: ventinho nordeste, água quente e meio metrão de onda. É claro que não tinha nenhum outro surfista dentro dágua - naquele tempo contava-se nos dedos o número de praticantes nas redondezas - a maior parte deles de Novo Hamburgo e Porto Alegre.
Depois deste dia, minhas caronas para o pier tornaram-se mais frequentes (provavelmente meus tutores não notaram meu pavor e me acharam boa companhia). Aos poucos fui perdendo o medo dos pilares e acabei virando um viciado no surfe "do outro lado do rio". E à medida em que comecei a surfar com mais frequencia no pier, comecei a fazer novas amizades e a formar uma nova turma. E o melhor: esta turma se encontra até hoje - às vezes dentro dágua e às vezes fora, em churrascos que estão se tornando tradição, no escritório do Fernando Ferrari, em Porto Alegre.
Na verdade, desde aquele primeiro banho no pier, minha vida nunca mais foi a mesma. Foi como se eu estivesse "pulando de fase" naquele dia. Encerrando minha fase iniciante e transformando-me num verdadeiro surfista.
Foi ali que aprimorei meu surfe e também foi ali que acabei conhecendo minha esposa. Meus melhores amigos são frequentadores do pico e minhas mais doces lembranças, ligadas à praia, passam por perto daquela plataforma.
Viajei para alguns paraísos de surfe e ainda assim morri de saudades das ondas do pier. Já fiz mais propaganda do local do que a própria Prefeitura. Já representei o pico em competições. Acompanhei várias gerações de surfistas surgirem. Já briguei, bati boca e me diverti muito surfando no local.
30 longos anos se passaram e ainda me lembro daquele primeiro banho com o Bicudo. Penso que se não tivesse sido aquela carona, minha vida poderia ter tomado um rumo totalmente diferente.
Obrigado Bicudo, te devo esta. Obrigado Tramandaí, minha vida ainda acontece aí.
Boas ondas.
Fábio Fabuloso
Hoje é domingo, dezembro, está fazendo um calor danado e acabo de sair do cinema de um shopping de Porto Alegre.Como assim...? Dezembro, o maior sol do mundo e eu na cidade...? Não, ainda não fiquei louco. Tive que ficar porque no sábado tinha um compromisso e a idéia original, era passar o domingão na praia. Só que dei uns telefonemas e descobri que não estava valendo.
Foi aí que o acaso me empurrou para um dos maiores prazeres que tive nos últimos tempos: assistir o lançamento do documentário sobre a vida do paraibano Fábio Gouveia. Descobri que o evento estaria acontecendo às 14h, almocei correndo, convidei um amigo e me toquei. Confesso que, a princípio, sem muita espectativa, pois para mim, os filmes de surfe atuais são todos iguais: uma sucessão de aerials de tudo quanto é tipo, cheios de cortes malucos, normalmente filmados nas Mentawai ou em algum beachbreak safado e com uma trilha sonora trash e barulhenta. Bom para ver num bar, enquanto se joga conversa fora, mas de jeito nenhum numa sala de cinema.
De qualquer maneira, eu estava curioso, pois o filme vem ganhando tudo quanto é prêmio por este Brasil a fora - e de gente de fora do nosso meio.
Pois bem, o que posso dizer é que o filme é simplesmente sensacional. Do começo ao fim. Edição, montagem, trilha sonora, efeitos visuais, tudo. É imperdível. Obviamente não vou falar aqui sobre a qualidade do surfe, porque em se tratando de Fábio "Fabuloso" Gouveia, não há o que dizer senão que ele é o Pelé do surfe. Comparado internacionalmente com Tom Curren, desbravador de fronteiras para o surfe tupiniquim, engraçado como só ele e respeitado como poucos surfistas no mundo.
Recentemente, ouvi um comentário sobre o DVD "Pelé Eterno" que me fez compra-lo: me disseram que, após assistir o documentário, chega-se à conclusão de que Ronaldinho e Cia. não são "uma perna do Pelé". Apesar de ve-lo jogar várias vezes, confesso que tive que assistir o filme para concordar que o comentário não é um exagero. O cara é inigualável.
Da mesma maneira, ao assistir Fábio Fabuloso, fui lembrado de tudo o que este cabra fez e continua fazendo dentro e fora d'água. Também vi e ouvi histórias - a maior parte delas contadas por gringos - que eu nunca tinha ouvido nem lido a respeito.
Daí eu puxo da memória e lembro de um OP Pro nos idos anos 80. Joaquina lotada e lá, no meio daquelas centenas de surfistas amadores, um deles cujo nome nunca tinha ouvido, arrebentando com as ondas. Mas a minha surpresa não foi com o fato de um desconhecido estar acabando com as ondas - isto era normal em tempos pré-internet e Sportv. A surpresa veio quando soube que o cara era um paraibano e que estava dormindo sob o palanque. Era Fábio Gouveia, começando a mostrar-se ao mundo. Não lembro de muitos detalhes daquele campeonato, mas jamais esqueci do surfe apresentado pelo Fabinho.
Mal posso esperar pelo lançamento do DVD do filme. Há uma vaga bem ao lado do "Pelé Eterno" reservada especialmente para "Fábio Fabuloso".
Boas ondas.
segunda-feira, 15 de novembro de 2004
Ditadura no surfe gaúcho
(Jornal Extremo Sul)
Para a maior parte dos leitores do Jornal Extremo Sul, a palavra ditadura remete às aulas de história no colégio. A maioria de vocês, nasceu quando o Brasil já se encaminhava para um clima de “diretas já”, Tancredo Neves, Collor, etc. Portanto, acusar o surfe gaúcho de estar vivendo uma ditadura deve parecer meio estranho para aqueles que me lêem.
Eu explico. Houve uma época neste país, em que o simples fato de você pensar diferente do que o governo determinava, significava que você estava sujeito a ser preso e o pior: torturado. Você seria taxado de comunista e seria castigado por ousar pensar diferente.
Alguns artistas tinham suas obras examinadas antes mesmo de tornarem-se públicas e os veículos de comunicação sofriam todo o tipo de sensura prévia. O que não estivesse “de acordo” éra vetado.
Eu sou fruto desta época. No meu tempo, não se aprendia na escola nada sobre política e sociologia. Nos ensinavam a acreditar que o sistema político vigente era perfeito e que o Brasil era o melhor lugar do mundo para se viver. Lembro-me, como se fosse hoje, que admirava o presidente Médici, talvez um dos ditadores mais duros que o nosso pais já viu. Mas éramos educados a acreditar que ele éra um sujeito formidável. No entanto, no período em que ele esteve no poder, muitos inocentes morreram nos porões, torturados. Quando eu tinha 17 anos, em 1981, fiz um intercâmbio estudantil e fui morar na Califórinia (EUA) por seis meses. Lá, juntamente com estudantes de outros lugares do mundo, fazíamos palestras em escolas, cada um falando do seu país. Quando éra minha vez de falar, eu disparava barbaridades como “no Brasil não nos preocupamos com política. Temos coisas mais importantes e prazerosas para nos preocupar…”. Eu não tinha culpa. Estava sendo educado assim. E coitado de quem resolvesse protestar.
Mas isto foi há mais de vinte anos. De lá prá cá, o Brasil transformou-se num país tão democrático que chegou ao ponto de eleger um ex-metalúrgico como presidente. Os meios de comunicação tem liberdade para criticar, comentar e denunciar a classe política.
Na contra-mão disto tudo, vem o surfe gaúcho. Exagero meu? Acredito que não. Examine comigo: Já faz alguns anos que somos torpedeados com notícias de que “nunca o surfe gaúcho esteve tão bem” ou “pela primeira vez na história do surfe gaúcho está se fazendo isto ou aquilo” ou “a maior premiação da história” e por aí vai. Quem não pode viajar para competir em outros estados, lê pouco ou não conhece o passado do surfe gaúcho corre o sério risco de viver aquilo que eu vivi há 23 anos: ficar bitolado e acreditar naquilo que estão dizendo por aí.
Quanto à sensura e o tratamento com os “reacionários”, pelo que fiquei sabendo, está igual – falta só a tortura. Depois que a última edição do Extremo Sul saiu, com a minha coluna “Sem Tesão”, a FGS saiu à caça. Impos uma série de retaliações ao jornal e, até onde sei, todas as pessoas consideradas “meus amigos” passaram a sofrer algum tipo de pressão.
Ora, se isto não é um comportamento ditatorial, então eu não sei mais nada. No lugar do diálogo, a FGS prefere enfiar a cabeça num buraco e fazer de conta que aqueles que criticam são inimigos e os que elogiam são amigos. O pior é que a minha coluna nem fazia nenhum tipo de acusação, apenas dizia que EU estava desgostoso com a situação. Vai entender…
Houve quem me acusou de “nunca ter feito nada pelo surfe gaúcho”. Eu precisaria muito mais espaço do que tenho aqui para listar tudo o que já fiz, então escolhi uma coisa que serve como prova das duas coisas (que eu fiz e que a FGS estragou):

Na foto, você me vê cercado pela cúpula da FGS, em 2001, no coquetel de lançamento do Circuito Trópico Supertrials, válido para o ranking brasileiro, organizado pela Office Marketing.
O que eu fiz: incumbido pela FGS, fui ao mercado e fechei negócio com a Office, empresa com mais de 15 anos de mercado e super competente na área de organização de eventos. O que a FGS fez: quebrou um contrato que deveria durar três anos no final do primeiro ano - que a Office havia planejado para durar três - a FGS simplesmente dispensou-a. Não há uma explicação para o ocorrido. Simplesmente, chegou à conclusão de que não precisava mais da Office. Conclusão: a Office Marketing saiu com prejuízo financeiro e com uma péssima imagem do surf e nós…bem, nós, deixa pra lá!
Para a maior parte dos leitores do Jornal Extremo Sul, a palavra ditadura remete às aulas de história no colégio. A maioria de vocês, nasceu quando o Brasil já se encaminhava para um clima de “diretas já”, Tancredo Neves, Collor, etc. Portanto, acusar o surfe gaúcho de estar vivendo uma ditadura deve parecer meio estranho para aqueles que me lêem.
Eu explico. Houve uma época neste país, em que o simples fato de você pensar diferente do que o governo determinava, significava que você estava sujeito a ser preso e o pior: torturado. Você seria taxado de comunista e seria castigado por ousar pensar diferente.
Alguns artistas tinham suas obras examinadas antes mesmo de tornarem-se públicas e os veículos de comunicação sofriam todo o tipo de sensura prévia. O que não estivesse “de acordo” éra vetado.
Eu sou fruto desta época. No meu tempo, não se aprendia na escola nada sobre política e sociologia. Nos ensinavam a acreditar que o sistema político vigente era perfeito e que o Brasil era o melhor lugar do mundo para se viver. Lembro-me, como se fosse hoje, que admirava o presidente Médici, talvez um dos ditadores mais duros que o nosso pais já viu. Mas éramos educados a acreditar que ele éra um sujeito formidável. No entanto, no período em que ele esteve no poder, muitos inocentes morreram nos porões, torturados. Quando eu tinha 17 anos, em 1981, fiz um intercâmbio estudantil e fui morar na Califórinia (EUA) por seis meses. Lá, juntamente com estudantes de outros lugares do mundo, fazíamos palestras em escolas, cada um falando do seu país. Quando éra minha vez de falar, eu disparava barbaridades como “no Brasil não nos preocupamos com política. Temos coisas mais importantes e prazerosas para nos preocupar…”. Eu não tinha culpa. Estava sendo educado assim. E coitado de quem resolvesse protestar.
Mas isto foi há mais de vinte anos. De lá prá cá, o Brasil transformou-se num país tão democrático que chegou ao ponto de eleger um ex-metalúrgico como presidente. Os meios de comunicação tem liberdade para criticar, comentar e denunciar a classe política.
Na contra-mão disto tudo, vem o surfe gaúcho. Exagero meu? Acredito que não. Examine comigo: Já faz alguns anos que somos torpedeados com notícias de que “nunca o surfe gaúcho esteve tão bem” ou “pela primeira vez na história do surfe gaúcho está se fazendo isto ou aquilo” ou “a maior premiação da história” e por aí vai. Quem não pode viajar para competir em outros estados, lê pouco ou não conhece o passado do surfe gaúcho corre o sério risco de viver aquilo que eu vivi há 23 anos: ficar bitolado e acreditar naquilo que estão dizendo por aí.
Quanto à sensura e o tratamento com os “reacionários”, pelo que fiquei sabendo, está igual – falta só a tortura. Depois que a última edição do Extremo Sul saiu, com a minha coluna “Sem Tesão”, a FGS saiu à caça. Impos uma série de retaliações ao jornal e, até onde sei, todas as pessoas consideradas “meus amigos” passaram a sofrer algum tipo de pressão.
Ora, se isto não é um comportamento ditatorial, então eu não sei mais nada. No lugar do diálogo, a FGS prefere enfiar a cabeça num buraco e fazer de conta que aqueles que criticam são inimigos e os que elogiam são amigos. O pior é que a minha coluna nem fazia nenhum tipo de acusação, apenas dizia que EU estava desgostoso com a situação. Vai entender…
Houve quem me acusou de “nunca ter feito nada pelo surfe gaúcho”. Eu precisaria muito mais espaço do que tenho aqui para listar tudo o que já fiz, então escolhi uma coisa que serve como prova das duas coisas (que eu fiz e que a FGS estragou):

Na foto, você me vê cercado pela cúpula da FGS, em 2001, no coquetel de lançamento do Circuito Trópico Supertrials, válido para o ranking brasileiro, organizado pela Office Marketing.
O que eu fiz: incumbido pela FGS, fui ao mercado e fechei negócio com a Office, empresa com mais de 15 anos de mercado e super competente na área de organização de eventos. O que a FGS fez: quebrou um contrato que deveria durar três anos no final do primeiro ano - que a Office havia planejado para durar três - a FGS simplesmente dispensou-a. Não há uma explicação para o ocorrido. Simplesmente, chegou à conclusão de que não precisava mais da Office. Conclusão: a Office Marketing saiu com prejuízo financeiro e com uma péssima imagem do surf e nós…bem, nós, deixa pra lá!
quarta-feira, 10 de novembro de 2004
Em casa
(Site Ondas do Sul)
Foi com muita satisfação que recebi o convite para escrever uma coluna aqui no site. Na verdade, satisfação dupla, pois trata-se de um site legitimamente “Tramiliense” o que vai me dar a sensação de estar escrevendo pra galera que encontro todos os finais de semana dentro dágua e também porque recentemente tive o desprazer de me ver transformado em “persona non grata” pela Federação Gaúcha de Surf devido a uma coluna que escrevi no jornal Extremo Sul. Neste caso, fiquei muito faceiro pelo fato de ver que o que escrevi não manchou minha imagem junto à galera séria e que quer ver as coisas acontecendo do jeito certo no surfe gaúcho.
Desde que apareceram os primeiros sites gaúchos com a proposta de mostrar fotos das ondas que tenho uma crítica quanto a maneira dos caras organizarem a navegação nos mesmos. Sempre tive a impressão que o que a maioria dos visitantes queria éra – antes de mais nada – ver as fotos, depois o resto. E o que acontecia? Éramos obrigados a dar mil cliques até chegar à foto que queriamos. E ainda tem alguns sites que, ao abrirem, carregam uma dúzia de pop-ups com propaganda de festas, liquidações, etc, etc, etc.
Eis que num belo dia encontrei, por acaso, o Ondasdosulrs. Que maravilha! Uma foto do Backdoor e outra da Malvina, na cara! Sem frescura. Entrou no site e viu como está em Tramandaí. Pronto, posso seguir com os meus afazeres. Se tiver tempo, também posso explorar o site e ver um perfil de um surfista local, fotos da galera, etc. Tudo nosso. Tudo daqui. O resto está nos outros sites.
É isso aí. Tramandaí há muito tempo é um dos principais polos surfísticos do estado e merecia um site assim. E me orgulho de poder fazer parte disto agora.
Porque mesmo quando eu estava no Puerto Escondido, tinha saudades da direita “estúpida” da Malvina. Em Trestles, lembrava do Backdoor clássico. E em La Paloma, senti saudades da Barrinha clássica. É isso, depois de 30 anos surfando todos os finais de semana o mesmo pico, das duas uma: ou você enjoa de vêz, ou passa a considerar este pico, sua casa. Eu escolhi a segunda opção. E agora, posso ver como está “minha casa” de qualquer lugar do mundo.
Melhor: sou colaborador e “palpiteiro” do site que retrata “minha casa”…é o sonho.
Ainda não sei qual vai ser a frequência da minha participação aqui. Estamos entrando num período de experiência. A idéia é renovar a coluna quinzenalmente. Vou fazer o possível para não faltar e, desde já, coloco meu email (abaixo) à disposição da galera para servir de porta-voz perante à comunidade Tramiliense. Querendo mandar um recado pra galera do pico, mande um email e garanto que o recado chega lá.
Boas ondas.
Foi com muita satisfação que recebi o convite para escrever uma coluna aqui no site. Na verdade, satisfação dupla, pois trata-se de um site legitimamente “Tramiliense” o que vai me dar a sensação de estar escrevendo pra galera que encontro todos os finais de semana dentro dágua e também porque recentemente tive o desprazer de me ver transformado em “persona non grata” pela Federação Gaúcha de Surf devido a uma coluna que escrevi no jornal Extremo Sul. Neste caso, fiquei muito faceiro pelo fato de ver que o que escrevi não manchou minha imagem junto à galera séria e que quer ver as coisas acontecendo do jeito certo no surfe gaúcho.
Desde que apareceram os primeiros sites gaúchos com a proposta de mostrar fotos das ondas que tenho uma crítica quanto a maneira dos caras organizarem a navegação nos mesmos. Sempre tive a impressão que o que a maioria dos visitantes queria éra – antes de mais nada – ver as fotos, depois o resto. E o que acontecia? Éramos obrigados a dar mil cliques até chegar à foto que queriamos. E ainda tem alguns sites que, ao abrirem, carregam uma dúzia de pop-ups com propaganda de festas, liquidações, etc, etc, etc.
Eis que num belo dia encontrei, por acaso, o Ondasdosulrs. Que maravilha! Uma foto do Backdoor e outra da Malvina, na cara! Sem frescura. Entrou no site e viu como está em Tramandaí. Pronto, posso seguir com os meus afazeres. Se tiver tempo, também posso explorar o site e ver um perfil de um surfista local, fotos da galera, etc. Tudo nosso. Tudo daqui. O resto está nos outros sites.
É isso aí. Tramandaí há muito tempo é um dos principais polos surfísticos do estado e merecia um site assim. E me orgulho de poder fazer parte disto agora.
Porque mesmo quando eu estava no Puerto Escondido, tinha saudades da direita “estúpida” da Malvina. Em Trestles, lembrava do Backdoor clássico. E em La Paloma, senti saudades da Barrinha clássica. É isso, depois de 30 anos surfando todos os finais de semana o mesmo pico, das duas uma: ou você enjoa de vêz, ou passa a considerar este pico, sua casa. Eu escolhi a segunda opção. E agora, posso ver como está “minha casa” de qualquer lugar do mundo.
Melhor: sou colaborador e “palpiteiro” do site que retrata “minha casa”…é o sonho.
Ainda não sei qual vai ser a frequência da minha participação aqui. Estamos entrando num período de experiência. A idéia é renovar a coluna quinzenalmente. Vou fazer o possível para não faltar e, desde já, coloco meu email (abaixo) à disposição da galera para servir de porta-voz perante à comunidade Tramiliense. Querendo mandar um recado pra galera do pico, mande um email e garanto que o recado chega lá.
Boas ondas.
domingo, 1 de agosto de 2004
Doces lembranças…
Revista Na Real
Foi com muito prazer e um pouco surpreso que li a primeira edição da Na Real. Lembrar histórias que vivi e que fizeram parte da minha vida me enchem de nostalgia e, de certa maneira, me fazem reviver um pouco daquela época, que foi tão boa. Foi muito bacana ler todas aquelas estórias contadas pela turma de Atlântida. Gente da minha geração, lembrando causos dos quais fiz parte.
Mas acima de tudo foi uma agradável surpresa constatar que finalmente está caindo a ficha. Aos poucos, as pessoas ligadas ao surfe aqui no RS estão se dando conta da importância de resgatar o nosso passado. Mas o mais surpreendente no caso da Na Real, é que o responsável pela revista é um jovem que não tem nem idéia de como as coisas éram.
O Rafael, está aproveitando o foco que determinou para a revista, para conhecer a história do surfe no estado. Na primeira edição, diagramada de maneira impecável, com um texto envolvente e de fácil leitura, conhecemos a história do esporte na região de Atlântida. O bacana é que o Rafa – e torço para que aos poucos, todo o resto da geração dele – está curtindo esta coisa de ouvir histórias. Ele está aprendendo a respeitar o fato de que, antes dele, existiam outros caras abrindo as portas e preparando o terreno que ele ocupa hoje.
Se hoje existem centenas de surfshops, dezenas de fábricas de prancha, empresas de surfwear, associações de surf, competições, etc. no RS, é porque existiu uma turma de “desbravadores” encarando as dificuldades características daqui para “adequar” o esporte à esta realidade. Esta gente ignorou o frio, a falta de clientes e de ondas, lutou contra o que parecia óbvio e transformopu esta terra, tão distante do ideal sonhado pelos surfistas (clima tropical, altas ondas, etc.) em um verdadeiro pólo surfístico.
E a realidade é que sempre me chateou o fato destes pioneiros ficarem esquecidos, não recebendo o verdadeiro crédito que merecem. Cada vez que eu ouvia frases do tipo “a primeira vez na história do RS” ou “a maior já feita no estado…” ou ainda “ nunca antes conquistado…” sendo proferidas por gente que nasceu ontem e, literalmente assassinando a nossa história, confesso que sentia uma mágoa muito grande. E isto não se deve apenas ao fato de eu ter feito parte de um pedaço da história real, mas porque eu não acho justo este desleixo com uma coisa tão rica e bonita como a nossa.
Fico pensando neste assunto e me vem à mente cenas de surf na praia da Guarita, em Torres, por volta de 1979. Os imãos Barroso, Alemão Caio e outros, arrebentando de pranchão (ou seriam guns). O primeiro campeonato de surf estadual do qual participei, com o patrocínio da Lee, nos molhes de Torres. Um amigo me avisou que seria desclassificado caso encostasse os pés no chão. Perdi a bateria, mas juro que não encostei os pés no chão. Alguns anos depois: Circuito Renner de Surf. Milhares de pessoas lotam a praia para assistir a final do evento, em Atlântida. A Renner montava uma estrutura comparável a que vemos hoje para os X Games. Até loja do Kanto Kente tinha! Depois as etapas do circuito Brasileiro (ABRASP) patrocinadas pela Brasil Surf. Verdadeiros festivais de surf. O acontecimento do verão gaúcho. E as festas do surf na Crocodillo’s? Era o ponto de encontro da galera em Porto Alegre. Todo mundo estava lá. E por aí vai.
É claro que as coisas mudam. Umas pioram. Muitas melhoram. Mas nada continua igual. E não há nada melhor do que lembrar. É ótimo para quem não viveu aprender porque as coisas são como são e é melhor ainda para quem viveu, lembrar que fez parte daquilo que hoje, é apenas história.
E foi com este espírito, que ajudei o Rafa a juntar grande parte da turma “das antigas” de Tramandaí e Imbé, num churrasco. Todos juntos para contar e relembrar história. Algumas nem eu lembrava mais. Outras, aconteceram antes de “eu virar gente”. Muitas eu fiz parte. Demos muitas risadas. Mas acima de tudo, vivemos e confirmamos que o espírito, a razão pela qual tudo começou, continua intacta: camaradagem, diversão e tesão pelo surf. O corpo envelhece, mas a alma permanece ligada.
Espero que esta semente que está sendo plantada pela revista Na Real, junto com o trabalho da Cristina Engler, que está escrevendo um livro sobre a história do surf no estado, ajude a esclarecer de vez aquilo que se manteve escondido dos surfistas gaúchos durante a última década (ou mais): de que sim, temos uma história muito bacana para ser contada.
Foi com muito prazer e um pouco surpreso que li a primeira edição da Na Real. Lembrar histórias que vivi e que fizeram parte da minha vida me enchem de nostalgia e, de certa maneira, me fazem reviver um pouco daquela época, que foi tão boa. Foi muito bacana ler todas aquelas estórias contadas pela turma de Atlântida. Gente da minha geração, lembrando causos dos quais fiz parte.
Mas acima de tudo foi uma agradável surpresa constatar que finalmente está caindo a ficha. Aos poucos, as pessoas ligadas ao surfe aqui no RS estão se dando conta da importância de resgatar o nosso passado. Mas o mais surpreendente no caso da Na Real, é que o responsável pela revista é um jovem que não tem nem idéia de como as coisas éram.
O Rafael, está aproveitando o foco que determinou para a revista, para conhecer a história do surfe no estado. Na primeira edição, diagramada de maneira impecável, com um texto envolvente e de fácil leitura, conhecemos a história do esporte na região de Atlântida. O bacana é que o Rafa – e torço para que aos poucos, todo o resto da geração dele – está curtindo esta coisa de ouvir histórias. Ele está aprendendo a respeitar o fato de que, antes dele, existiam outros caras abrindo as portas e preparando o terreno que ele ocupa hoje.
Se hoje existem centenas de surfshops, dezenas de fábricas de prancha, empresas de surfwear, associações de surf, competições, etc. no RS, é porque existiu uma turma de “desbravadores” encarando as dificuldades características daqui para “adequar” o esporte à esta realidade. Esta gente ignorou o frio, a falta de clientes e de ondas, lutou contra o que parecia óbvio e transformopu esta terra, tão distante do ideal sonhado pelos surfistas (clima tropical, altas ondas, etc.) em um verdadeiro pólo surfístico.
E a realidade é que sempre me chateou o fato destes pioneiros ficarem esquecidos, não recebendo o verdadeiro crédito que merecem. Cada vez que eu ouvia frases do tipo “a primeira vez na história do RS” ou “a maior já feita no estado…” ou ainda “ nunca antes conquistado…” sendo proferidas por gente que nasceu ontem e, literalmente assassinando a nossa história, confesso que sentia uma mágoa muito grande. E isto não se deve apenas ao fato de eu ter feito parte de um pedaço da história real, mas porque eu não acho justo este desleixo com uma coisa tão rica e bonita como a nossa.
Fico pensando neste assunto e me vem à mente cenas de surf na praia da Guarita, em Torres, por volta de 1979. Os imãos Barroso, Alemão Caio e outros, arrebentando de pranchão (ou seriam guns). O primeiro campeonato de surf estadual do qual participei, com o patrocínio da Lee, nos molhes de Torres. Um amigo me avisou que seria desclassificado caso encostasse os pés no chão. Perdi a bateria, mas juro que não encostei os pés no chão. Alguns anos depois: Circuito Renner de Surf. Milhares de pessoas lotam a praia para assistir a final do evento, em Atlântida. A Renner montava uma estrutura comparável a que vemos hoje para os X Games. Até loja do Kanto Kente tinha! Depois as etapas do circuito Brasileiro (ABRASP) patrocinadas pela Brasil Surf. Verdadeiros festivais de surf. O acontecimento do verão gaúcho. E as festas do surf na Crocodillo’s? Era o ponto de encontro da galera em Porto Alegre. Todo mundo estava lá. E por aí vai.
É claro que as coisas mudam. Umas pioram. Muitas melhoram. Mas nada continua igual. E não há nada melhor do que lembrar. É ótimo para quem não viveu aprender porque as coisas são como são e é melhor ainda para quem viveu, lembrar que fez parte daquilo que hoje, é apenas história.
E foi com este espírito, que ajudei o Rafa a juntar grande parte da turma “das antigas” de Tramandaí e Imbé, num churrasco. Todos juntos para contar e relembrar história. Algumas nem eu lembrava mais. Outras, aconteceram antes de “eu virar gente”. Muitas eu fiz parte. Demos muitas risadas. Mas acima de tudo, vivemos e confirmamos que o espírito, a razão pela qual tudo começou, continua intacta: camaradagem, diversão e tesão pelo surf. O corpo envelhece, mas a alma permanece ligada.
Espero que esta semente que está sendo plantada pela revista Na Real, junto com o trabalho da Cristina Engler, que está escrevendo um livro sobre a história do surf no estado, ajude a esclarecer de vez aquilo que se manteve escondido dos surfistas gaúchos durante a última década (ou mais): de que sim, temos uma história muito bacana para ser contada.
quinta-feira, 15 de julho de 2004
Sem tesão
(Jornal Extremo Sul)
Hoje é quinta-feira e esgotou o prazo para fazer minha inscrição na 2ª etapa do Circuito Gaúcho de Surf. Esperei até o último momento para, finalmente, decidir que iria desistir. Uma série de motivos me fez pensar muito no assunto nas últimas duas semanas: o compromisso (informal) que tenho com as empresas que me dão apoio, o prazer que tenho de participar de competições e, principalmente, a necessidade de defender o meu título de atual campeão gaúcho da categoria master (como este ano só haverá um descarte, eu ainda estava no jogo, mesmo não tendo participado da primeira etapa).
Ocorre que estou sem tesão. Não que eu tenha cansado de participar das competições. Nada disso. Na verdade, estou sedento por sentir aquela sensação de euforia misturada com um pouco de ansiedade e nervosismo que toma conta de mim durante uma bateria de campeonato. O problema é que não estou com a menor vontade de participar do que estão me oferecendo. Um circuito estadual sem o menor apelo. Sem divulgação adequada. Sem importância. Com uma premiação desconhecida. Com datas que são alteradas a todo o momento (mas permanecendo nos meses mais frios). Enfim, um circuito sem o menor glamour.
É claro que este é o ponto de vista de quem não tem mais a menor necessidade de competir. De quem já participou de alguns dos maiores eventos de surf que este país já viu. Mas, acima de tudo, de quem ainda gostaria de poder viver a alegria de competir em campeonatos de surf sérios, organizados por quem está interessado em botar o surf pra cima. Eventos que fazem surgir novos valores – tanto no lado dos competidores quanto no da organização.
Fico pensando nos atletas jovens, que estão iniciando suas carreiras. Fico pensando nos coitados que se aventuraram até os confins do Estado na primeira etapa, enfrentando um clima congelante e despesas salgadas para, no fim do evento, ouvir da organização que a premiação seria entregue somente na segunda etapa. Bem, a segunda etapa chegou. O que acontecerá em Salinas? Sinceramente torço para que tudo corra bem. As previsões de tempo, vento e ondulação estão muito boas e mostram que o final de semana será de sol, clima ameno e pouco vento, além de ondas de 1 metro. Tomara que a organização faça a parte dela e cumpra com suas obrigações, não só oferecendo uma boa estrutura para os atletas, mas, também (e finalmente), entregando a premiação que está em atraso – e, claro, a desta etapa também.
Isso tudo me leva a refletir e tentar buscar uma resposta, que na verdade tenho dificuldade de encontrar. O que se passa na cabeça do presidente da FGS? Por que, apesar dos inúmeros apelos que fiz – pessoalmente e via e-mails – ele não me responde? Por que, apesar das inúmeras vezes em que me ofereci para colaborar, ele nunca chamou a mim nem a nenhum dos membros do Conselho. Aliás, para que serve um conselho que nunca é convocado?
Aí a gente vai fazendo as comparações. Enquanto os surfistas morrem presos em redes aqui no Estado, sem que nada seja feito (as tão faladas placas ficam só na promessa e, de qualquer forma, são paliativas – quem vive o surf há anos sabe que esta não é a solução), em Santa Catarina, a Federação de Surf consegue um convênio médico para seus atletas filiados. Enquanto vamos para a segunda etapa do nosso circuito estadual, que mal consegue premiar seus campeões, no Estado vizinho já vão a mil os preparativos para a etapa do WCT. Enquanto estamos lutando para termos um campeão profissional estadual, eles seguem na liderança do brasileiro amador. Enquanto olhamos com nostalgia para o período em que tínhamos um gaúcho no WCT, eles estão com um time de primeira arrebentando no WQS. E por aí vai...
Amigos, os (bons) resultados que a Federação Catarinense vem mostrando, tanto no campo competitivo quanto no administrativo, são fruto de muito trabalho. De muito suor. De muita dedicação. Mas, sem sombra de dúvida, é o resultado de um trabalho feito em equipe e planejado. Ele não começou ontem e não foi feito por apenas uma pessoa.
E antes que alguém argumente que as ondas são melhores em Santa Catarina, eu aviso: uma coisa não tem nada a ver com a outra. A qualidade das ondas não determina o resultado do trabalho fora d’água. Se, por um lado realmente não há comparação entre a qualidade das nossas ondas e as deles, por outro, também não há comparação entre o PIB Gaúcho e o Catarinense. O Gaúcho é muito maior. E, cá entre nós: quem determina a qualidade do trabalho executado for a d’água é o dinheiro e não as ondas.
É incrível que a equipe que está à frente da FGS hoje não se toque que é necessário fazer um trabalho de base. E não estou falando de competições. Estou falando de administração. É preciso organizar a entidade do ponto de vista administrativo. É preciso criar uma sede com telefone, fax, secretária para atender este telefone e receber os fax, bem como anotar os recados e esclarecer dúvidas de quem procura por informações – e incluo a imprensa aí. É preciso criar uma newsletter para ser enviada para um cadastro (que já deveria ter sido criado. Eu, particularmente, preenchi inúmeras vezes fichas e mais fichas com informações pessoais). É preciso colocar no ar, urgente, um site com informações básicas, comunicados à imprensa e filiados, que ofereça a facilidade de se fazer inscrições em eventos on-line, que sirva como agente captador de patrocínios para todo o tipo de evento (cultural, educativo e competições).
E é claro que para gerenciar todo este processo é necessária a figura de um manager, um sujeito que até pode ser o próprio presidente, não importa. O que importa, isto sim, é que ele deve se dedicar full-time ao ofício. E, para tanto, deve ser remunerado.
Ilusão? Viagem? Acredito que não. Dinheiro há no mercado. O produto surf é um dos mais valorizados. Surfistas que são empresários de empresas importantes ou que são pessoas influentes na sociedade gaúcha há aos montes. Basta que apareçam as pessoas certas, com bom projeto e planejamento. E o mais importante: que tenham credibilidade junto àquelas pessoas que citei acima. Pronto! O processo acontece ao natural.
Assim, caro leitor (voltando ao ponto em que iniciei a coluna), cheguei à seguinte conclusão: a previsão está indicando que será um final de semana de altas ondas. Quer saber? Vou pra minha praia, cair no mar bem tranqüilo, sem correria de bateria, sem ter que vestir long molhado, perto da minha mulher e da minha filha e, se tudo correr bem, surfar horas a fio sem ter a obrigação de sair do mar depois de 15 minutos.
Na verdade, estou contando as horas, os minutos. Estou louco que chegue sábado de uma vez, pois a vontade de surfar jamais vai diminuir. O tesão pelo surfe parece aumentar em mim à medida que os anos se passam. Infelizmente, não posso dizer o mesmo sobre as competições. Quem sabe um dia elas voltem a me atrair. Do jeito que está, não tem jeito: não há tesão!
Em tempo: o assunto “Morte de surfistas em redes” está, conforme eu havia previsto, sumindo. Já não se fala mais em placas, leis, demarcação de área, etc., etc., etc. O ciclo está chegando ao seu final. Nunca torci tanto para estar errado, mas ciclos são ciclos. Se um está terminando…
Deus nos ajude.
Hoje é quinta-feira e esgotou o prazo para fazer minha inscrição na 2ª etapa do Circuito Gaúcho de Surf. Esperei até o último momento para, finalmente, decidir que iria desistir. Uma série de motivos me fez pensar muito no assunto nas últimas duas semanas: o compromisso (informal) que tenho com as empresas que me dão apoio, o prazer que tenho de participar de competições e, principalmente, a necessidade de defender o meu título de atual campeão gaúcho da categoria master (como este ano só haverá um descarte, eu ainda estava no jogo, mesmo não tendo participado da primeira etapa).
Ocorre que estou sem tesão. Não que eu tenha cansado de participar das competições. Nada disso. Na verdade, estou sedento por sentir aquela sensação de euforia misturada com um pouco de ansiedade e nervosismo que toma conta de mim durante uma bateria de campeonato. O problema é que não estou com a menor vontade de participar do que estão me oferecendo. Um circuito estadual sem o menor apelo. Sem divulgação adequada. Sem importância. Com uma premiação desconhecida. Com datas que são alteradas a todo o momento (mas permanecendo nos meses mais frios). Enfim, um circuito sem o menor glamour.
É claro que este é o ponto de vista de quem não tem mais a menor necessidade de competir. De quem já participou de alguns dos maiores eventos de surf que este país já viu. Mas, acima de tudo, de quem ainda gostaria de poder viver a alegria de competir em campeonatos de surf sérios, organizados por quem está interessado em botar o surf pra cima. Eventos que fazem surgir novos valores – tanto no lado dos competidores quanto no da organização.
Fico pensando nos atletas jovens, que estão iniciando suas carreiras. Fico pensando nos coitados que se aventuraram até os confins do Estado na primeira etapa, enfrentando um clima congelante e despesas salgadas para, no fim do evento, ouvir da organização que a premiação seria entregue somente na segunda etapa. Bem, a segunda etapa chegou. O que acontecerá em Salinas? Sinceramente torço para que tudo corra bem. As previsões de tempo, vento e ondulação estão muito boas e mostram que o final de semana será de sol, clima ameno e pouco vento, além de ondas de 1 metro. Tomara que a organização faça a parte dela e cumpra com suas obrigações, não só oferecendo uma boa estrutura para os atletas, mas, também (e finalmente), entregando a premiação que está em atraso – e, claro, a desta etapa também.
Isso tudo me leva a refletir e tentar buscar uma resposta, que na verdade tenho dificuldade de encontrar. O que se passa na cabeça do presidente da FGS? Por que, apesar dos inúmeros apelos que fiz – pessoalmente e via e-mails – ele não me responde? Por que, apesar das inúmeras vezes em que me ofereci para colaborar, ele nunca chamou a mim nem a nenhum dos membros do Conselho. Aliás, para que serve um conselho que nunca é convocado?
Aí a gente vai fazendo as comparações. Enquanto os surfistas morrem presos em redes aqui no Estado, sem que nada seja feito (as tão faladas placas ficam só na promessa e, de qualquer forma, são paliativas – quem vive o surf há anos sabe que esta não é a solução), em Santa Catarina, a Federação de Surf consegue um convênio médico para seus atletas filiados. Enquanto vamos para a segunda etapa do nosso circuito estadual, que mal consegue premiar seus campeões, no Estado vizinho já vão a mil os preparativos para a etapa do WCT. Enquanto estamos lutando para termos um campeão profissional estadual, eles seguem na liderança do brasileiro amador. Enquanto olhamos com nostalgia para o período em que tínhamos um gaúcho no WCT, eles estão com um time de primeira arrebentando no WQS. E por aí vai...
Amigos, os (bons) resultados que a Federação Catarinense vem mostrando, tanto no campo competitivo quanto no administrativo, são fruto de muito trabalho. De muito suor. De muita dedicação. Mas, sem sombra de dúvida, é o resultado de um trabalho feito em equipe e planejado. Ele não começou ontem e não foi feito por apenas uma pessoa.
E antes que alguém argumente que as ondas são melhores em Santa Catarina, eu aviso: uma coisa não tem nada a ver com a outra. A qualidade das ondas não determina o resultado do trabalho fora d’água. Se, por um lado realmente não há comparação entre a qualidade das nossas ondas e as deles, por outro, também não há comparação entre o PIB Gaúcho e o Catarinense. O Gaúcho é muito maior. E, cá entre nós: quem determina a qualidade do trabalho executado for a d’água é o dinheiro e não as ondas.
É incrível que a equipe que está à frente da FGS hoje não se toque que é necessário fazer um trabalho de base. E não estou falando de competições. Estou falando de administração. É preciso organizar a entidade do ponto de vista administrativo. É preciso criar uma sede com telefone, fax, secretária para atender este telefone e receber os fax, bem como anotar os recados e esclarecer dúvidas de quem procura por informações – e incluo a imprensa aí. É preciso criar uma newsletter para ser enviada para um cadastro (que já deveria ter sido criado. Eu, particularmente, preenchi inúmeras vezes fichas e mais fichas com informações pessoais). É preciso colocar no ar, urgente, um site com informações básicas, comunicados à imprensa e filiados, que ofereça a facilidade de se fazer inscrições em eventos on-line, que sirva como agente captador de patrocínios para todo o tipo de evento (cultural, educativo e competições).
E é claro que para gerenciar todo este processo é necessária a figura de um manager, um sujeito que até pode ser o próprio presidente, não importa. O que importa, isto sim, é que ele deve se dedicar full-time ao ofício. E, para tanto, deve ser remunerado.
Ilusão? Viagem? Acredito que não. Dinheiro há no mercado. O produto surf é um dos mais valorizados. Surfistas que são empresários de empresas importantes ou que são pessoas influentes na sociedade gaúcha há aos montes. Basta que apareçam as pessoas certas, com bom projeto e planejamento. E o mais importante: que tenham credibilidade junto àquelas pessoas que citei acima. Pronto! O processo acontece ao natural.
Assim, caro leitor (voltando ao ponto em que iniciei a coluna), cheguei à seguinte conclusão: a previsão está indicando que será um final de semana de altas ondas. Quer saber? Vou pra minha praia, cair no mar bem tranqüilo, sem correria de bateria, sem ter que vestir long molhado, perto da minha mulher e da minha filha e, se tudo correr bem, surfar horas a fio sem ter a obrigação de sair do mar depois de 15 minutos.
Na verdade, estou contando as horas, os minutos. Estou louco que chegue sábado de uma vez, pois a vontade de surfar jamais vai diminuir. O tesão pelo surfe parece aumentar em mim à medida que os anos se passam. Infelizmente, não posso dizer o mesmo sobre as competições. Quem sabe um dia elas voltem a me atrair. Do jeito que está, não tem jeito: não há tesão!
Em tempo: o assunto “Morte de surfistas em redes” está, conforme eu havia previsto, sumindo. Já não se fala mais em placas, leis, demarcação de área, etc., etc., etc. O ciclo está chegando ao seu final. Nunca torci tanto para estar errado, mas ciclos são ciclos. Se um está terminando…
Deus nos ajude.
terça-feira, 15 de junho de 2004
Sentimentos extremos
(Jornal Extremo Sul)
Na coluna deste mês tenho o prazer de contar uma coisa muito bacana que está acontecendo no surfe gaúcho, mas também tenho desprazer de comentar a volta do horror das mortes nas redes de pesca.
E é pela notícia ruim que inicio.
Na minha coluna da edição passada, comentei que nós, surfistas gaúchos, enfrentávamos os extremos. Escrevi que quando chegava o inverno por aqui, tínhamos que lidar com a água e o vento frio, as correntes e o pior: as redes de pesca.
Pareceu uma previsão. Menos de um mês depois, aconteceu. Este é um fato que já está se tornando corriqueiro para nós: morte em redes de pesca. Nem iniciou o inverno e já tivemos uma baixa. Trata-se de uma tragédia horrorosa. Mas ninguém, nem a imprensa, parece se impressionar. Uma manchete nos jornais no dia seguinte, uma chamadinha no rádio e na tv – quase insignificante – e terminou a atenção. Foi. Passou. Esta notícia não vende mais.
Eu convido o leitor a fazer algumas reflexões. Tente lembrar-se quantas vezes já vimos em revistas de circulação nacional, no Jornal Nacional e até no Fantástico, reportagens sobre a morte de surfistas – às vezes apenas ferimentos – causadas por ataques de tubarões no nordeste brasileiro. Agora compare este número com a absurda estatística oficial de 44 mortes em redes, acontecidas aqui no RS. Não há comparação. É desproporcional. E este número impressiona mais ainda se levarmos em conta que a história do surfe gaúcho tem uns 40 anos. Isto nos dá a horrorosa estatística de mais de uma morte por ano!
E ninguém parace se horrorizar com isto. O povo gaúcho – e aqui não falo apenas da comunidade do surfe – parece já ter assimilado esta tragédia. É como se o fato de seres humanos serem pescados como se fossem peixes, fosse uma fatalidade, como os ataques de tubarão contra os quais não há muito o que se possa fazer.
Está na hora de darmos uma basta para isto. Chega de promessas e leis que não resolvem nada. Chega de conversa e pose para fotografias sem que resultados sejam conquistados. Se o leitor pensa que estou criticando a FGS e os políticos que se intitulam nossos “aliados”, acertou. Tenho visto muita onda em cima do assunto e nada de solução. E quando faço esta crítica, faço com tranquilidade, pois não só faço parte de uma comissão que já obteve alguns resultados efetivos (acordo com a plataforma de Atlântida e derrubada, sob liminar, da lei que proibe o surfe ao lado da Plataforma de Tramandaí) mas também porque estas mesmas críticas, fiz pessoalmente para o Presidente da FGS. Ele sabe da minha posição e já ouviu minhas sugestões. Ah e é sempre bom lembrar: quando nossa comissão reúne-se periodicamente para trabalhar em cima do assunto, o único item que não faz parte da nossa pauta é propaganda. Nenhum de nós está buscando remuneração, notoriedade e muito menos votos – se é que me entendem.
Mas enquanto nada se resolve, a vida segue e nem tudo é notícia ruim no surfe gaúcho.
Uma pessoa corajosa e sonhadora, ousou desafiar o que parecia impossível e juntou numa mesma sala, representantes dos 40 anos de história do surfe local. Tive o privilégio – e a honra – de poder estar presente neste evento e, acreditem, foi inesquecível.
Quando conversei com a Cristina Engler pela primeira vez, em dezembro passado, confesso que não levei muita fé no projeto. Não por não acreditar nela, mas porque sabia que ela encontraria uma pedreira gigante pela frente e imaginei que esta pedreira não tinha jeito de ser derrubada.
Pois não é que a moça não só “patrolou” a pedreira, como também está conseguindo transforma-la num lindo gramado!
Eu, que estou acostumado a me achar velho e experiente, de repente me vi diante de gente bem mais velha e infinitamente mais experiente do que eu em termos de história do surfe gaúcho. Confesso que a metade dos presentes eu não conhecia. Era gente muito velha. Gente que
Não frequenta os mesmos mares que eu nem com a mesma frequencia. Mas percebi que tinhamos uma coisa em comum: a paixão pelo surfe. A outra metade era formada pela geração que antecedeu a minha e, finalmente, o “resto de nós”. As conversas giraram em torno de surf trips pré-históricas, praias virgens (que hoje são considerados “pico da galera”), equipamento, estilo de surf, competições e ídolos – Nat Young para uns, Mark Richars para outros e Tom Curren ou Kelly Slater para o resto.
Mais tarde, depois de muita cerveja oferecida pelo Dado Bier e um belo churrasco, houve uma projeção de slides. Inacreditável, é tudo o que eu posso dizer. Foto de uma Brasília carregada de pranchas, em cima dos molhes de Torres, de onde se vê a cidade – sem nenhum edifício! Outra da Guarita, com a clássica direita que nunca mais quebrou. Fotos de praias famosas da nossa Santa Catarina sem ninguém à vista. Fotos da inauguração da pista de skate do Marinha – e todo mundo com a camiseta da FGSS. (Não houve erro de digitação, é que naquela época, o skate fazia parte da Federação também). Muitas fotos de pranchões e, quando alguma cena de surf – clássico – aparecia, rolava aquela gritaria, só que não eramos nós os “guris” gritando e sim os “tios” revivendo aquele tempo em que para se ver um filme de surf em Porto Alegre, era preciso reunir uma turma num auditório e projetar a película numa parede branca.
Foi uma noite inesquecível. Provavelmente outras acontecerão. Mandei os meus parabéns para a Cristina no dia seguinte. Repito aqui e agradeço imensamente a força que ela está dando para a nossa comunidade.
Se Deus quiser, tudo vai correr bem e até o ano que vem teremos duas boas notícias para comemorar: o sucesso do projeto da Cristina que chama-se Caminho das Ondas e o fim das mortes em redes. Estou torcendo. E participando como posso.
Na coluna deste mês tenho o prazer de contar uma coisa muito bacana que está acontecendo no surfe gaúcho, mas também tenho desprazer de comentar a volta do horror das mortes nas redes de pesca.
E é pela notícia ruim que inicio.
Na minha coluna da edição passada, comentei que nós, surfistas gaúchos, enfrentávamos os extremos. Escrevi que quando chegava o inverno por aqui, tínhamos que lidar com a água e o vento frio, as correntes e o pior: as redes de pesca.
Pareceu uma previsão. Menos de um mês depois, aconteceu. Este é um fato que já está se tornando corriqueiro para nós: morte em redes de pesca. Nem iniciou o inverno e já tivemos uma baixa. Trata-se de uma tragédia horrorosa. Mas ninguém, nem a imprensa, parece se impressionar. Uma manchete nos jornais no dia seguinte, uma chamadinha no rádio e na tv – quase insignificante – e terminou a atenção. Foi. Passou. Esta notícia não vende mais.
Eu convido o leitor a fazer algumas reflexões. Tente lembrar-se quantas vezes já vimos em revistas de circulação nacional, no Jornal Nacional e até no Fantástico, reportagens sobre a morte de surfistas – às vezes apenas ferimentos – causadas por ataques de tubarões no nordeste brasileiro. Agora compare este número com a absurda estatística oficial de 44 mortes em redes, acontecidas aqui no RS. Não há comparação. É desproporcional. E este número impressiona mais ainda se levarmos em conta que a história do surfe gaúcho tem uns 40 anos. Isto nos dá a horrorosa estatística de mais de uma morte por ano!
E ninguém parace se horrorizar com isto. O povo gaúcho – e aqui não falo apenas da comunidade do surfe – parece já ter assimilado esta tragédia. É como se o fato de seres humanos serem pescados como se fossem peixes, fosse uma fatalidade, como os ataques de tubarão contra os quais não há muito o que se possa fazer.
Está na hora de darmos uma basta para isto. Chega de promessas e leis que não resolvem nada. Chega de conversa e pose para fotografias sem que resultados sejam conquistados. Se o leitor pensa que estou criticando a FGS e os políticos que se intitulam nossos “aliados”, acertou. Tenho visto muita onda em cima do assunto e nada de solução. E quando faço esta crítica, faço com tranquilidade, pois não só faço parte de uma comissão que já obteve alguns resultados efetivos (acordo com a plataforma de Atlântida e derrubada, sob liminar, da lei que proibe o surfe ao lado da Plataforma de Tramandaí) mas também porque estas mesmas críticas, fiz pessoalmente para o Presidente da FGS. Ele sabe da minha posição e já ouviu minhas sugestões. Ah e é sempre bom lembrar: quando nossa comissão reúne-se periodicamente para trabalhar em cima do assunto, o único item que não faz parte da nossa pauta é propaganda. Nenhum de nós está buscando remuneração, notoriedade e muito menos votos – se é que me entendem.
Mas enquanto nada se resolve, a vida segue e nem tudo é notícia ruim no surfe gaúcho.
Uma pessoa corajosa e sonhadora, ousou desafiar o que parecia impossível e juntou numa mesma sala, representantes dos 40 anos de história do surfe local. Tive o privilégio – e a honra – de poder estar presente neste evento e, acreditem, foi inesquecível.
Quando conversei com a Cristina Engler pela primeira vez, em dezembro passado, confesso que não levei muita fé no projeto. Não por não acreditar nela, mas porque sabia que ela encontraria uma pedreira gigante pela frente e imaginei que esta pedreira não tinha jeito de ser derrubada.
Pois não é que a moça não só “patrolou” a pedreira, como também está conseguindo transforma-la num lindo gramado!
Eu, que estou acostumado a me achar velho e experiente, de repente me vi diante de gente bem mais velha e infinitamente mais experiente do que eu em termos de história do surfe gaúcho. Confesso que a metade dos presentes eu não conhecia. Era gente muito velha. Gente que
Não frequenta os mesmos mares que eu nem com a mesma frequencia. Mas percebi que tinhamos uma coisa em comum: a paixão pelo surfe. A outra metade era formada pela geração que antecedeu a minha e, finalmente, o “resto de nós”. As conversas giraram em torno de surf trips pré-históricas, praias virgens (que hoje são considerados “pico da galera”), equipamento, estilo de surf, competições e ídolos – Nat Young para uns, Mark Richars para outros e Tom Curren ou Kelly Slater para o resto.
Mais tarde, depois de muita cerveja oferecida pelo Dado Bier e um belo churrasco, houve uma projeção de slides. Inacreditável, é tudo o que eu posso dizer. Foto de uma Brasília carregada de pranchas, em cima dos molhes de Torres, de onde se vê a cidade – sem nenhum edifício! Outra da Guarita, com a clássica direita que nunca mais quebrou. Fotos de praias famosas da nossa Santa Catarina sem ninguém à vista. Fotos da inauguração da pista de skate do Marinha – e todo mundo com a camiseta da FGSS. (Não houve erro de digitação, é que naquela época, o skate fazia parte da Federação também). Muitas fotos de pranchões e, quando alguma cena de surf – clássico – aparecia, rolava aquela gritaria, só que não eramos nós os “guris” gritando e sim os “tios” revivendo aquele tempo em que para se ver um filme de surf em Porto Alegre, era preciso reunir uma turma num auditório e projetar a película numa parede branca.
Foi uma noite inesquecível. Provavelmente outras acontecerão. Mandei os meus parabéns para a Cristina no dia seguinte. Repito aqui e agradeço imensamente a força que ela está dando para a nossa comunidade.
Se Deus quiser, tudo vai correr bem e até o ano que vem teremos duas boas notícias para comemorar: o sucesso do projeto da Cristina que chama-se Caminho das Ondas e o fim das mortes em redes. Estou torcendo. E participando como posso.
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