terça-feira, 5 de abril de 2005

Monday Morning Wave

Desde que me cadastrei no "Monday Morning Wave", no site da revista Surfer's Path, sou brindado todas as segundas-feiras com este tipo de imagem no meu e-mail:

Nova Zelandia | Foto:Paul Kennedy (Monday Morning Wave)

A revista inglesa Surfer's Path, parece ser muito bacana. Na verdade nunca tive nenhuma edição nas mãos - nem parece que vou ter, pois US$ 45,00 por 6 edições é muito para este pobre bolso.

Mas o que me chamou a atenção desde o momento em que tomei conhecimento da revista foi o seu belo projeto gráfico (que vi pelo site) e o fato de ser uma publicação ecologicamente correta - a edição atual, número 42, é a primeira "green" surf magazine. Ela é impressa com papel 100% reciclado.

Não sou nenhum patrulhador do verde, mas acho bacana saber que existem revistas com a qualidade da Surfer's Path por aí e, quem sabe daqui há pouco sobram uns dolarzinhos para eu encomendar minha assinatura.

Por enquanto me alegra receber toda a segunda-feira uma imagem de cair o queixo (como aquela ali em cima) e, no mesmo e-mail, saber onde está acontecendo o "swell da semana".

Surfistas

(Martha Medeiros | Jornal Zero Hora | Quarta-feira | 29/08/2001)

A Veja anuncia cada exemplar com outdoors espalhados pela cidade, mostrando a capa da semana e fazendo referência à reportagem principal através de uma frase de efeito. Funciona, chama a atenção. O outdoor que está veiculando atualmente diz mais ou menos assim: "Dicionário Houaiss. 228.500 verbetes, inclusive as oito palavras que os surfistas já sabem. Ainda bem que surfista não sabe ler, né?".

Eu nunca pratiquei surfe, mas sempre tive uma certa atração pelo esporte, já que gosto de mar e de praia. Por muito tempo o surfe foi considerado um hobby elitista, mas hoje, se não me engano, é o segundo esporte mais praticado no país, ficando atrás apenas do futebol, o que não chega a surpreender, tendo o Brasil uma costa litorânea tão extensa. O surfe emprega pessoas e sustenta famílias, mas quem quer saber de reavaliar conceitos? Uma vez surfista, sempre calhorda.

Nós não pegamos onda, mas sabemos como pegar no pé. E dá-lhe rotular. Todo engenheiro é careta, todo publicitário é mauricinho, todo modelo é burro, todo médico é santo, todo jogador de futebol é ignorante, todo jornalista é de esquerda, todo corretor é chato, todo poeta é viajandão, todo advogado é canalha, todo mecânico é desonesto, e acho que basta de exemplos, lembrando que vale para ambos os sexos. Serão mesmo?

Em alguns casos, são, sim. Só que com um detalhe: o engenheiro careta, se de repente virar um webdesigner, será um webdesigner careta. O publicitário vaidoso, se for trabalhar numa mina de carvão, vai levar um espelhinho escondido na carteira. O corretor xarope, se resolver ser diretor de cinema, vai ser um diretor de cinema daqueles que a gente atravessa a rua para evitar o encontro. Temperamento e QI independem da profissão ou do esporte que a gente escolhe. Não fosse assim a gente diria que todo presidente dos Estados Unidos é inteligente, e, no entanto, quem diria.

Não tenho a menor vontade de conhecer o Havaí, não saberia diferenciar uma parafina de um sabonete e tenho trauma de tatuíra. O desagravo, portanto, vai em nome dos diversos surfistas que conheço que são leitores vorazes, não escutam apenas Foo Fighters e, se não conhecem mais de oito palavras, é em russo. No inglês, frances e espanhol, até que se viram direitinho. Aliás, Gustavo Kuerten, pelo pouco que sei, não me parece um idiota, e não é jogando xadrez que ele descansa do tênis.

Piadinhas, tudo bem, mas preconceito já perdeu a graça.

III Circuito Renner de Surf (1987)

(Matéria da Revista Fluir | Nº 20 | Ano 4 | Maio 1987 | Pág. 104)
3º Circuito Gaúcho de Verão: em Torres, a Consagração de Mancuso

O Circuito Renner é o principal acontecimento do calendário surfístico no verão. Com o patrocínio das Lojas Renner e Lee, organização da Federação Gaúcha de Surf e apoio das prefeituras das praias onde rolaram as três etapas (Atlântida, Tramandaí e Torres), o evento deste ano reuniu atletas de todo o Estado, do Cassino à Torres, provando que o surf gaúcho, assim como no resto do país, cresce a cada ano, a cada mês, a cada competição. O reflexo desta situação fica evidente no desempenho dos surfistas na água, melhorando de evento para evento.

Houve divisão com as seguintes categorias: bodyboard (masculino e feminino), mirim, master, amador e semi-profissional. Como não existe ainda a categoria profissional no Circuito, os prêmios restringiram-se a passagens aéreas, sendo o principal prêmio a passagem para o Hawaii que foi concedida ao campeão da categoria semi-pro. Antes de falar sobre a última e decisiva etapa de Torres, uma geral no que foram as duas primeiras etapas do Circuito.

1ª Etapa: Atlântida, de 9 a 11 de janeiro

A abertura do Circuito contou com um público razoável a bom para assistir as manobras dos melhores surfistas do estado. Cerca de 180 atletas correram nesta etapa, bastante prejudicada pelas más condições do mar na maior parte do tempo (bastante mexido, sem pico definido e com ondas sem força, a maioria com dois pés). As condições melhoraram bastante após a chuva da tarde de domingo, o que trouxe séries bem mais constantes para as finais, com ondas de três pés, fortes e extensas em ambos os lados do pier (o campeonato rolou no lado esquerdo). Aproveitando estas boas ondas, Giovanni Mancuso matou a categoria semi-pro ficando Roberto Wolf em segundo. Nas outras categorias os resultados foram: bodyboard masculino, José Roxo em primeiro e José Rodrigues em segundo; bodyboard feminino, Tanira Guimarães campeã e Márcia Barbosa vice; Sandro Neto e Nick Barcellos ficaram com as duas primeiras colocações na mirim; na master, Edu Coufal em primeiro e Alê Guerreiro em segundo e na amador, em disputa acirrada e de altíssimo nível, Eduardo Luz surfou mais e surpreendeu Arthur Johanpeter, sagrando-se campeão da categoria.

2ª Etapa: Tramandaí, de 30 de janeiro a 1 de fevereiro

Mar novamente ruim para a segunda etapa do Circuito, desta vez realizada ao lado do pier de Tramandaí. As ondas um pouco mais fortes do que as de Atlântida, mas bastante pequenas e sem pico definido. O melhor mar desta etapa pintou no domingo de manhã (novamente após uma chuva), mas no decorrer do dia não manteve as mesmas condições, prejudicando o desempenho dos competidores nas finais. O campeão semi-pro desta etapa foi Felipe Silveira, o Felipinho, recém chegado de bom resultado no OP Pro (9º lugar), com Roberto Wolf novamente na segunda posição. Marcos Bozovian e Marcelo Teruskin ficaram em primeiro e segundo no bodyboard masculino, enquanto Tanira Guimarães e Andréa Rocha foram campeã e vice no feminino. Na categoria mirim novamente deu Sandro Neto, ficando a segunda colocação para Rogério Duarte. Na master, Caio Barcellos e Edu Coufal foram os dois primeiros colocados e, na amador, o título máximo ficou para Rafael Cirne Lima, ficando Marcelo Maciel em segundo.

3ª Etapa: Torres, de 6 a 8 de fevereiro

A única etapa que não foi realizada ao lado de um pier, mas sim ao lado direito dos molhes de pedra que entram no mar acompanhando o rio Mampituba (limite natural entre o Rio Grande do Sul e Santa Catarina). O mar, entretanto, não estava diferente das duas primeiras etapas: Bastante mexido, com ondas gordas e sem força, poucas vezes apresentou condições para a realização de um campeonato. Azar, pois estava em jogo nesta etapa o título máximo: campeão do 3º Circuito Renner. Mesmo assim, foi a etapa que teve o maior número de participantes (aproximadamanente 230) e bom público torcendo na praia.

No bodyboard masculino José Toniolo, até então em terceiro no ranking, ganhou a etapa e também o Circuito, provando que a regularidade é fundamental quando se corre um campeonato dividido em etapas. No feminino, a campeã em Torres foi Patrícia Ritter, ficando Cândida Coelho em segundo, mas quem ficou com o título máximo foi Didi Menezes, terceira nesta etapa e finalista nas duas anteriores. Na categoria mirim, uma das maiores revelações do surf gaúcho, Sandro Neto, foi o campeão mais uma vez, o único atleta a vencer as três etapas do Circuito. Enquanto isso, na Master, Edu Coufal comprovou seu talento ao conquistar também esta última etapa e com ela o título de campeão no geral. Na amador, o grande destaque foi Marcelo Maciel, em segundo no geral antes da última etapa, que surfou demais em seu pico de origem e levantou a etapa e a passagem para o Peru reservada ao campeão do Circuito. Luciano Regert foi vice nesta etapa e ficou com a segunda colocação no geral.

Na categoria semi-pro, em disputa uma passagem para o Hawaii. Na batalha, três nomes com boas chances: Roberto Wolf (em primeiro), Felipe Silveira e Giovanni Mancuso (ambos dividindo a segunda colocação). Roberto caiu na semi final numa bateria com Frida e Giovanni, perdendo assim as chances de ser o campeão, pois seus dois rivais mais diretos garantiram vaga na bateria final. Giovanni e Felipinho fariam a briga pela passagem. Na hora da bateria cair n'água, desaba o maior desaba o maior toró. Sem visibilidade nenhuma e com poucas ondas, Giovanni consegue ser mais oportunista que o consistente Felipinho, escolhendo e trabalhando melhor as ondas.
No resultado, Giovanni campeão e Felipinho vice, dois surfista amadores do Imbé que se encontram em vertiginosa ascenção. Resultado justo, portanto.

Resultados:

Mirim
1º - Sandro Neto (300pts) - Passagem Recife
2º - Adrian Trias (227,61pts) - Passagem Rio

Master
1º - Edu Coufal (290pts) - Passagem Salvador
2º - Alê Guerreiro (252,90pts) - Prancha

Amador
1º - Marcelo Maciel (255,90pts) - Passagem Peru
2º - Luciano Regert (205,96pts) - Passagem Natal
3º - Paulo Buarque (189,67pts) - Passagem Recife
4º - Rafael Cirne Lima (184,48pts) - Passagem Salvador

Semi-pro
1º - Giovanni Mancuso (265,61pts) - Passagem Hawaii
2º - Felipe Silveira (255,61pts) - Passagem Califórnia
3º - Roberto Wolf (245,61pts) - Passagem México
4º - Ricardo Coufal (212,22pts) - Passagem Peru

BBoard Masculino
1º - José Toniolo (247,61pts) - Passagem Rio
2º - Marcos Bozovian (238,51pts) - Bodyboard

BBoard Feminino
1º - Didi Menezes (227,61pts) - Passagem Rio
2º - Andréa Rocha (221,22pts) - Bodyboard

Texto e fotos: Marcelo Ruschel

segunda-feira, 4 de abril de 2005

Surf x Pesca (em 1985)

(Jornal Zero Hora - Fevereiro de 1985)

Segue a matéria na íntegra, com seu texto original:

Surfistas continuam ignorando pescadores

A briga entre pescadores e surfistas da plataforma de Tramandaí tende a cair no vazio. Primeiro porque se prolonga há muitos anos, depois, porque os surfistas não estão nem aí com a grita dos pescadores. Continuam praticando seu esporte no local onde as ondas quebram com mais força.

Ontem, a turma de surfistas era grande. Todos riam da pretenção dos pescadores em delimitar uma área de cem metros em torno da plataforma somente para eles, apesar de reconhecerem o perigo que representa surfar junto às linhas e anzóis. Na verdade, afirmavam, dificilmente haverá uma interdição, até porque já existe uma determinação da Capitania dos Portos, proibindo a prática do surf até 200 metros da plataforma. Mas ninguém olha para a velha placa.

"Entendemos a preocupação dos pescadores, mas esta intenção deles é só para dar trabalho para a polícia. A gente pode entrar aqui e sair 100 metros adiante", diz Giovanni Mancuso, 21 anos, residente em Porto Alegre, há muitos anos surfista reconhecido. "podem proibir que não vai adiantar nada". A opinião de todos era uma só: nada de atritos, e sim espaços para todos no mar. "Dá para conviver perfeitamente, é só querer. O mar não tem dono..."

Surfistas diplomados

(Revista Veja | Agosto | 2001)
A comunidade dos praticantes do surfe tem executivos, cientistas, médicos e outros profissionais bem-sucedidos. Veja alguns exemplos:

Craig Venter
O geneticista californiano de 58 anos é presidente do laboratório Celera Genomics, a empresa que decifrou o código genético humano. Além de ser famoso pelo projeto Genoma, o ex-surfista é conhecido por sua personalidade agressiva.

Kary Mullis
O vencedor do Prêmio Nobel de Química em 1993 continua perto das ondas. Mesmo aos 58 anos, Kary surfa com freqüência. Ele foi premiado por desenvolver o método PCR, que é capaz de multiplicar infinitas amostras de DNA. É um cientista polêmico: garante que a camada de ozônio não está diminuindo e que o HIV não provoca a Aids.

Marcelo Lacerda
Um dos pioneiros da internet no Brasil, Lacerda idealizou o portal Zaz (comprado pelo Terra). Aos 43 anos, enfrenta uma rotina pesada como presidente do Terra Networks, mas não deixa de surfar quase todos os fins de semana no litoral paulista.

Novo critério de julgamento

Versão 2005 - ASP

O novo critério já está valendo para todos os eventos de 2005.

As mudanças são o resultado de um processo de "maturação" de um ano, supervisionado pelo Head Judge da ASP, Perry Hatchett. Ele reflete as performances de ponta e captura o espírito do freesurf, que é a essência do esporte.

Usando como laboratório as expression sessions e o evento experimental organizado por Kelly Slater em Fiji, Perry e os demais membros da equipe tácnica da ASP, incluindo os próprios surfistas, deram uma flexibilizada no critério, beneficiando o surf progressivo e introduzindo um sistema de bonificação baseado na demonstração de variedade no repertório de manobras e na técnica de emendar uma manobra na outra, na parte crítica da onda, com fluidez, estilo e velocidade.

"O surfista deve executar, com controle, manobras radicais, na parte mais crítica da onda, com velocidade, força e fluidez para buscar a pontuação máxima. A criatividade e o surf progressivo bem como variedade de repertório (manobras), serão levados em consideração no momento da pontuação das ondas contadas.

O surfista que utilizar este critério com o maior grau de dificuldade e determinação nas ondas deverá receber as maiores notas."

Para quem quiser ler a versão original - sem a minha "tosca" tradução, vá até o site da ASP -> Media Guide -> Judging Criteria.

Boas ondas.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2005

Meu primeiro surfe na plataforma

(Site Ondas do Sul)

Cracas! Muitas! E muito afiadas! Os pilares me pareceram muito mais perigosos, assim, tão de perto. Além disso, achei muito estranha a correnteza que se forma perto deles. Na verdade eu estava tão assustado que não conseguia ficar perto, portanto acabava tomando as ondas na cabeça em vez de aproveitar o canal.

Mas era apenas o meu primeiro surfe na plataforma. Naquela época, para se chegar até o pier, era necessário descer de carro mais ou menos na altura do condomínio Quebra-mar. Dali até o pico, era só areia e cômoros.

Eram outros tempos. Minha família mudava-se para Imbé em dezembro e só voltavamos para a cidade em março. Costumava surfar só em Imbé. Na verdade, o meu mundo não ia além da barra. Nem imaginava que poderiam quebrar ondas tão diferentes, tão perto dali.

Eu fazia parte de uma nova geração de surfistas que estava surgindo. Cabia aos mais velhos nos mostrar os segredos do esporte. Para nós, um bando de pirralhos, poder vadiar a tarde inteira com esta turma era o auge. Isto acontecia na oficina de consertos de pranchas que ficava nos fundos da casa do Ticaio. Prestávamos atenção a cada detalhe do que faziam. Eu ficava maravilhado com a perícia que tinham em lidar com aquelas "gosmas" que, segundo eles, depois endurecia e servia de "casca" para as pranchas.

Estes eram os caras que nos inspiravam. Eles caiam nos dias grandes, de ressaca, enquanto nós subíamos nos cômoros para acompanhar de lá, os drops que, para nós, pareciam gigantescos.

Numa destas tardes, o Marco "Bicudo" Martins, junto com seu irmão George e o Gustavo "Guga" Adams, me convidaram para ir surfar na plataforma. Para mim, o que contava era a oportunidade de dar uma caída com os caras. Nem pensei onde estava indo surfar. Era algo totalmente novo para mim: colocar minha prancha na capota do Doginho do Bicudo e embarcar no meu primeiro "surfari". Eu não estava cabendo dentro de mim.

Quando chegamos ao pico, eu nem olhei para o mar. Isto não era o mais importante. Eu só tinha olhos e ouvidos para o que estava acontecendo naquele carro. O som que tocava. Os papos dos caras. Eu já estava me sentindo "o surfista"!!

Lembro como se fosse hoje, do Bicudo me dando as dicas no canal: "rema perto os pilares Giovanni, pois ali há um canal e não quebram ondas..." mas como já disse, eu estava muito apavorado para aproveitar o canal...

Na verdade não lembro como estavam as ondas. Se não me engano estava fazendo um típico final de tarde de verão: ventinho nordeste, água quente e meio metrão de onda. É claro que não tinha nenhum outro surfista dentro dágua - naquele tempo contava-se nos dedos o número de praticantes nas redondezas - a maior parte deles de Novo Hamburgo e Porto Alegre.

Depois deste dia, minhas caronas para o pier tornaram-se mais frequentes (provavelmente meus tutores não notaram meu pavor e me acharam boa companhia). Aos poucos fui perdendo o medo dos pilares e acabei virando um viciado no surfe "do outro lado do rio". E à medida em que comecei a surfar com mais frequencia no pier, comecei a fazer novas amizades e a formar uma nova turma. E o melhor: esta turma se encontra até hoje - às vezes dentro dágua e às vezes fora, em churrascos que estão se tornando tradição, no escritório do Fernando Ferrari, em Porto Alegre.

Na verdade, desde aquele primeiro banho no pier, minha vida nunca mais foi a mesma. Foi como se eu estivesse "pulando de fase" naquele dia. Encerrando minha fase iniciante e transformando-me num verdadeiro surfista.

Foi ali que aprimorei meu surfe e também foi ali que acabei conhecendo minha esposa. Meus melhores amigos são frequentadores do pico e minhas mais doces lembranças, ligadas à praia, passam por perto daquela plataforma.

Viajei para alguns paraísos de surfe e ainda assim morri de saudades das ondas do pier. Já fiz mais propaganda do local do que a própria Prefeitura. Já representei o pico em competições. Acompanhei várias gerações de surfistas surgirem. Já briguei, bati boca e me diverti muito surfando no local.

30 longos anos se passaram e ainda me lembro daquele primeiro banho com o Bicudo. Penso que se não tivesse sido aquela carona, minha vida poderia ter tomado um rumo totalmente diferente.

Obrigado Bicudo, te devo esta. Obrigado Tramandaí, minha vida ainda acontece aí.

Boas ondas.

Fábio Fabuloso

Hoje é domingo, dezembro, está fazendo um calor danado e acabo de sair do cinema de um shopping de Porto Alegre.
Como assim...? Dezembro, o maior sol do mundo e eu na cidade...? Não, ainda não fiquei louco. Tive que ficar porque no sábado tinha um compromisso e a idéia original, era passar o domingão na praia. Só que dei uns telefonemas e descobri que não estava valendo.

Foi aí que o acaso me empurrou para um dos maiores prazeres que tive nos últimos tempos: assistir o lançamento do documentário sobre a vida do paraibano Fábio Gouveia. Descobri que o evento estaria acontecendo às 14h, almocei correndo, convidei um amigo e me toquei. Confesso que, a princípio, sem muita espectativa, pois para mim, os filmes de surfe atuais são todos iguais: uma sucessão de aerials de tudo quanto é tipo, cheios de cortes malucos, normalmente filmados nas Mentawai ou em algum beachbreak safado e com uma trilha sonora trash e barulhenta. Bom para ver num bar, enquanto se joga conversa fora, mas de jeito nenhum numa sala de cinema.

De qualquer maneira, eu estava curioso, pois o filme vem ganhando tudo quanto é prêmio por este Brasil a fora - e de gente de fora do nosso meio.
Pois bem, o que posso dizer é que o filme é simplesmente sensacional. Do começo ao fim. Edição, montagem, trilha sonora, efeitos visuais, tudo. É imperdível. Obviamente não vou falar aqui sobre a qualidade do surfe, porque em se tratando de Fábio "Fabuloso" Gouveia, não há o que dizer senão que ele é o Pelé do surfe. Comparado internacionalmente com Tom Curren, desbravador de fronteiras para o surfe tupiniquim, engraçado como só ele e respeitado como poucos surfistas no mundo.

Recentemente, ouvi um comentário sobre o DVD "Pelé Eterno" que me fez compra-lo: me disseram que, após assistir o documentário, chega-se à conclusão de que Ronaldinho e Cia. não são "uma perna do Pelé". Apesar de ve-lo jogar várias vezes, confesso que tive que assistir o filme para concordar que o comentário não é um exagero. O cara é inigualável.

Da mesma maneira, ao assistir Fábio Fabuloso, fui lembrado de tudo o que este cabra fez e continua fazendo dentro e fora d'água. Também vi e ouvi histórias - a maior parte delas contadas por gringos - que eu nunca tinha ouvido nem lido a respeito.
Daí eu puxo da memória e lembro de um OP Pro nos idos anos 80. Joaquina lotada e lá, no meio daquelas centenas de surfistas amadores, um deles cujo nome nunca tinha ouvido, arrebentando com as ondas. Mas a minha surpresa não foi com o fato de um desconhecido estar acabando com as ondas - isto era normal em tempos pré-internet e Sportv. A surpresa veio quando soube que o cara era um paraibano e que estava dormindo sob o palanque. Era Fábio Gouveia, começando a mostrar-se ao mundo. Não lembro de muitos detalhes daquele campeonato, mas jamais esqueci do surfe apresentado pelo Fabinho.

Mal posso esperar pelo lançamento do DVD do filme. Há uma vaga bem ao lado do "Pelé Eterno" reservada especialmente para "Fábio Fabuloso".

Boas ondas.

segunda-feira, 15 de novembro de 2004

Ditadura no surfe gaúcho

(Jornal Extremo Sul)

Para a maior parte dos leitores do Jornal Extremo Sul, a palavra ditadura remete às aulas de história no colégio. A maioria de vocês, nasceu quando o Brasil já se encaminhava para um clima de “diretas já”, Tancredo Neves, Collor, etc. Portanto, acusar o surfe gaúcho de estar vivendo uma ditadura deve parecer meio estranho para aqueles que me lêem.

Eu explico. Houve uma época neste país, em que o simples fato de você pensar diferente do que o governo determinava, significava que você estava sujeito a ser preso e o pior: torturado. Você seria taxado de comunista e seria castigado por ousar pensar diferente.
Alguns artistas tinham suas obras examinadas antes mesmo de tornarem-se públicas e os veículos de comunicação sofriam todo o tipo de sensura prévia. O que não estivesse “de acordo” éra vetado.

Eu sou fruto desta época. No meu tempo, não se aprendia na escola nada sobre política e sociologia. Nos ensinavam a acreditar que o sistema político vigente era perfeito e que o Brasil era o melhor lugar do mundo para se viver. Lembro-me, como se fosse hoje, que admirava o presidente Médici, talvez um dos ditadores mais duros que o nosso pais já viu. Mas éramos educados a acreditar que ele éra um sujeito formidável. No entanto, no período em que ele esteve no poder, muitos inocentes morreram nos porões, torturados. Quando eu tinha 17 anos, em 1981, fiz um intercâmbio estudantil e fui morar na Califórinia (EUA) por seis meses. Lá, juntamente com estudantes de outros lugares do mundo, fazíamos palestras em escolas, cada um falando do seu país. Quando éra minha vez de falar, eu disparava barbaridades como “no Brasil não nos preocupamos com política. Temos coisas mais importantes e prazerosas para nos preocupar…”. Eu não tinha culpa. Estava sendo educado assim. E coitado de quem resolvesse protestar.

Mas isto foi há mais de vinte anos. De lá prá cá, o Brasil transformou-se num país tão democrático que chegou ao ponto de eleger um ex-metalúrgico como presidente. Os meios de comunicação tem liberdade para criticar, comentar e denunciar a classe política.

Na contra-mão disto tudo, vem o surfe gaúcho. Exagero meu? Acredito que não. Examine comigo: Já faz alguns anos que somos torpedeados com notícias de que “nunca o surfe gaúcho esteve tão bem” ou “pela primeira vez na história do surfe gaúcho está se fazendo isto ou aquilo” ou “a maior premiação da história” e por aí vai. Quem não pode viajar para competir em outros estados, lê pouco ou não conhece o passado do surfe gaúcho corre o sério risco de viver aquilo que eu vivi há 23 anos: ficar bitolado e acreditar naquilo que estão dizendo por aí.

Quanto à sensura e o tratamento com os “reacionários”, pelo que fiquei sabendo, está igual – falta só a tortura. Depois que a última edição do Extremo Sul saiu, com a minha coluna “Sem Tesão”, a FGS saiu à caça. Impos uma série de retaliações ao jornal e, até onde sei, todas as pessoas consideradas “meus amigos” passaram a sofrer algum tipo de pressão.

Ora, se isto não é um comportamento ditatorial, então eu não sei mais nada. No lugar do diálogo, a FGS prefere enfiar a cabeça num buraco e fazer de conta que aqueles que criticam são inimigos e os que elogiam são amigos. O pior é que a minha coluna nem fazia nenhum tipo de acusação, apenas dizia que EU estava desgostoso com a situação. Vai entender…

Houve quem me acusou de “nunca ter feito nada pelo surfe gaúcho”. Eu precisaria muito mais espaço do que tenho aqui para listar tudo o que já fiz, então escolhi uma coisa que serve como prova das duas coisas (que eu fiz e que a FGS estragou):


Na foto, você me vê cercado pela cúpula da FGS, em 2001, no coquetel de lançamento do Circuito Trópico Supertrials, válido para o ranking brasileiro, organizado pela Office Marketing.

O que eu fiz: incumbido pela FGS, fui ao mercado e fechei negócio com a Office, empresa com mais de 15 anos de mercado e super competente na área de organização de eventos. O que a FGS fez: quebrou um contrato que deveria durar três anos no final do primeiro ano - que a Office havia planejado para durar três - a FGS simplesmente dispensou-a. Não há uma explicação para o ocorrido. Simplesmente, chegou à conclusão de que não precisava mais da Office. Conclusão: a Office Marketing saiu com prejuízo financeiro e com uma péssima imagem do surf e nós…bem, nós, deixa pra lá!

quarta-feira, 10 de novembro de 2004

Em casa

(Site Ondas do Sul)

Foi com muita satisfação que recebi o convite para escrever uma coluna aqui no site. Na verdade, satisfação dupla, pois trata-se de um site legitimamente “Tramiliense” o que vai me dar a sensação de estar escrevendo pra galera que encontro todos os finais de semana dentro dágua e também porque recentemente tive o desprazer de me ver transformado em “persona non grata” pela Federação Gaúcha de Surf devido a uma coluna que escrevi no jornal Extremo Sul. Neste caso, fiquei muito faceiro pelo fato de ver que o que escrevi não manchou minha imagem junto à galera séria e que quer ver as coisas acontecendo do jeito certo no surfe gaúcho.

Desde que apareceram os primeiros sites gaúchos com a proposta de mostrar fotos das ondas que tenho uma crítica quanto a maneira dos caras organizarem a navegação nos mesmos. Sempre tive a impressão que o que a maioria dos visitantes queria éra – antes de mais nada – ver as fotos, depois o resto. E o que acontecia? Éramos obrigados a dar mil cliques até chegar à foto que queriamos. E ainda tem alguns sites que, ao abrirem, carregam uma dúzia de pop-ups com propaganda de festas, liquidações, etc, etc, etc.

Eis que num belo dia encontrei, por acaso, o Ondasdosulrs. Que maravilha! Uma foto do Backdoor e outra da Malvina, na cara! Sem frescura. Entrou no site e viu como está em Tramandaí. Pronto, posso seguir com os meus afazeres. Se tiver tempo, também posso explorar o site e ver um perfil de um surfista local, fotos da galera, etc. Tudo nosso. Tudo daqui. O resto está nos outros sites.

É isso aí. Tramandaí há muito tempo é um dos principais polos surfísticos do estado e merecia um site assim. E me orgulho de poder fazer parte disto agora.

Porque mesmo quando eu estava no Puerto Escondido, tinha saudades da direita “estúpida” da Malvina. Em Trestles, lembrava do Backdoor clássico. E em La Paloma, senti saudades da Barrinha clássica. É isso, depois de 30 anos surfando todos os finais de semana o mesmo pico, das duas uma: ou você enjoa de vêz, ou passa a considerar este pico, sua casa. Eu escolhi a segunda opção. E agora, posso ver como está “minha casa” de qualquer lugar do mundo.

Melhor: sou colaborador e “palpiteiro” do site que retrata “minha casa”…é o sonho.

Ainda não sei qual vai ser a frequência da minha participação aqui. Estamos entrando num período de experiência. A idéia é renovar a coluna quinzenalmente. Vou fazer o possível para não faltar e, desde já, coloco meu email (abaixo) à disposição da galera para servir de porta-voz perante à comunidade Tramiliense. Querendo mandar um recado pra galera do pico, mande um email e garanto que o recado chega lá.

Boas ondas.